Con.siderações sobre um conceito em expansão



A literatura cria uma relação infinita de significantes para com significados que dá ao leitor uma obra remodelada pela sua própria concepção de mundo. E que se expande, como efeito, quase como a morte de uma estrela: condensa, agita e funde os átomos até que não haja mais espaço nem gravidade para mantê-los como um único corpo; então ela explode e todas as suas partes flutuam pela imensidão do universo. Um espetáculo de vida, transcendência e o início de um novo ciclo. Eis aí o que a literatura pode fazer com o ser humano: uma supernova e a recriação da vida. A literatura será o falecimento do homem para o renascer de outro. Uma ruptura entre o indivíduo e pessoa social, criando uma fenda entre o leitor e a obra que seria preenchido com desassossegos e questionamentos sobre a realidade conhecida, que a literatura proporciona. Retomando a metáfora da estrela, esse preenchimento tornaria a estrela mais quente e instável. Estabelece, a partir dessa perspectiva, um movimento transcendente e de separação entre indivíduo (essência, personificação do plano metafísico) e pessoa social (mutabilidade do ser) para que ambos, após a explosão, retornem a se juntar e a criar uma nova estrela, um novo homem. Essa transformação constante do homem pode ser associada à variação de significado da obra pelo leitor. A infinidade e o prazer do desconhecido o incitam a recriar, como um instinto, o que lhe é apresentado. A obra literária, seja ela qual for, é uma nebulosa. Ela é regida por múltiplos elementos extremamente diversos um dos outros, com oscilação de massa e concentração de energia. Apesar dessas disparidades, todas são ditadas por uma força comum: a gravidade. As nebulosas são formas primárias para a formação de estrelas. Elas são a quintessência para o início e fim de uma vida, o começo de uma transformação constante e volátil da formação de um ser. A força, na física, tem categorias e conceitos diversos que explicam fenômenos naturais e involuntários em relação ao ser humano. Contudo a força aqui apresentada diz respeito à gravidade e ela será personificação da transmutação e a necessidade humana de transformação. Além disso, manterá seu conceito primitivo de atração de dois corpos. A relação de nebulosa e supernova dependem inteiramente da força gravitacional. É ela o fator determinante de metamorfose e dissociação com um corpo avulso, o obituário que implica mesmice, que se retém no espaço, o homem sem literatura, pois ela muda, amplia, se restabelece com o tempo. O homem, entretanto, nada muda de seu íntimo, de sua ambição e forma. Porém, se consciente de sua inconstância, seu interior será o infinito, instável e o explosivo universo. Pois a literatura vai além da forma e significações preestabelecidas. Ela flui pelos sentidos e se encontra no ócio, criando um vício no leitor de sentir-se conturbado, de ter sempre uma necessidade de reafirmação da realidade e da mutabilidade da mesma. A literatura traz perspectivas e alteridade para reconhecer a humanidade contida no próprio ser humano e o que vai além dele.