Deixando a Caverna: A questão do Nada em Esperando Godot e A paixão segundo G.H.



Na peça Esperando Godot, de Beckett, os personagens Gogo e Didi estão presos a um lugar estéril a espera de Godot, alguém que nunca chega. O vazio deste lugar e da vida dos personagens se refletem por toda a peça na repetição de palavras negativas como nada e elementos que simulam o movimento de eterno retorno, como os próprios nomes Didi e Gogo. De forma similar, o livro de Clarice Lispector, A paixão segundo G.H., apresenta uma personagem que costumava viver na mesma situação de Gogo e Didi, em um mundo de projeções, esvaziado de sentido. No entanto, G.H. passou pela experiência de catábase ao encontrar-se com a barata, abandonando a terceira perna e a ordem apolínea na qual vivia para ingressar na paixão dionisíaca.

Visto isso, este artigo tem como objetivo comparar a trajetória dos personagens principais de cada obra, tomando como base a alegoria da caverna de Platão e o niilismo de Nietzsche, para provar que Didi e Gogo são descrentes deste mundo e buscam sair desta caverna para um mundo idealizado através de Godot. Finalmente, também serão mencionados o par ordem apolínea e paixão dionisíaca, desenvolvido por Nietzsche, para argumentar que Gogo e Didi estão vivendo entre ambos os pares no estágio de nada, assim como G.H. esteve quando se despiu de valores projetados para sair da ordem apolínea e adentrar, através da barata na paixão dionisíaca. Sendo assim, em Beckett, Godot exerce a mesma função que a barata exerce para G.H., uma transição para o desconhecido, para a paixão dionisíaca e para o mundo idealizado.

O mundo da obra Esperando Godot é apresentado como um lugar estéril, composto somente por um pequeno monte de terra e uma árvore, um símbolo comum de vida e esperança que na obra não possui nenhuma folha, reforçando a ideia de esterilidade. Neste lugar, passa um número mínimo de pessoas e não havia nenhum tipo de atividade a ser realizada. A mesma descrição pode ser feita em relação ao interior dos personagens. Gogo e Didi apresentam profundo tédio e descrença por este mundo e transmitem esses sentimentos através da repetição constante da palavra nada durante a peça. Esta situação pode ser observada na passagem seguinte, extraída do princípio da peça.


- Estragon: (Desistindo novamente). Nada à fazer. [...]

- Vladimir: As vezes, sinto que é tudo a mesma coisa. Então, me sinto estranho.[...] Como posso colocar? Aliviado e, ao mesmo tempo.... [...] apavorado. APA-VORADO. Engraçado. Nada à ser feito. [...].Então ?

- Estragon: Nada

- Vladimir: Me mostre.

- Estragon: Não há nada para mostrar.


O mundo construído por Samuel Beckett em sua obra pode se adequar à alegoria da caverna de Platão. De acordo com esta, o homem vive dentro de uma caverna, virado para a parede e seu único conhecimento são as imagens projetadas de elementos que passam em frente à fogueira. Nesta alegoria, a caverna pode ser tida como o mundo sensível, o mundo em que vivemos inicialmente.

O mundo isolado de Didi e Godo se aplica a este nível sensível no qual eles estão presos a projeções e submetidos a eterna espera por Godot. Porém, na alegoria o homem consegue abandonar a caverna na medida que adquire conhecimento metafísico e passa a se conhecer verdadeiramente. Logo, a espera por Godot pode se relacionar ao desejo de fuga da caverna para o plano inteligível, no qual os personagens encontrarão seu verdadeiro Eu e viverão em um mundo melhor por eles idealizado. O desejo de transição e a insatisfação com este mundo é evidenciado também pelas constantes tentativas de causar alguma ação, como enforcar a si mesmo. Na passagem abaixo, Estragon afirma que as pessoas são ignorantes, podendo significar o não enquadramento neste mundo e o desejo por outro nível de conhecimento. Por isso, o propõe que eles se movam, porém, Vladimir afirma que eles estão esperando por Godot.


- Estragon: Quem acredita nele?

- Vladimir: Todo mundo, é a única versão que eles conhecem.

- Estragon: Pessoas são malditos macacos burros [...]

- Estragon: Locais encantadores. Futuros inspiradores. Vamos!

- Vladimir: Nós não podemos.

- Estragon: Porque não?

- Vladimir: Estamos esperando por Godot.


No livro A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, uma jornada similar pode ser depreendida. G.H. é acostumada a uma vida padronizada com tudo perfeitamente limpo e claro em seu apartamento, sendo a representação de tal organização. No apartamento, ainda existem decorações que imitam a vida de artistas e a própria personagem diz ser tudo a projeção do real. Por esta afirmação, já é possível inferir que G.H. vivia na caverna, no entanto, algo a incomodava e ela decide começar a organizar seu apartamento pelo quarto da empregada. Tal decisão a introduz na travessia para o abandono da caverna. Esta transição requer que ela deixe seu atual estado e entre em um estado de "nada", no qual ela abandona todas as suas convenções. Neste estado de "nadismo", a personagem deixa todas as projeções que a definiam pra trás, como é exemplificado no começo do livro. Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessário, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi e voltei a ser uma persona que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive. [...]

Como foi mencionado anteriormente, o nada também é recorrente na obra de Beckett pela mesma necessidade de despir-se das projeções que constituem os personagens, inicialmente. Ademais, esta repetição pode ser argumentada como sendo uma forma de mostrar desistência dessa vida, sendo esta atitude niilista. Contudo, o niilismo de Gogo e Didi mostra a recusa em desistir, eles não são capazes de suicídio e não se movem para outro lugar. Ainda que a existência deles esteja presa a um círculo infinito, Gogo e Didi nunca desistem de esperar por Godot. Por conta desta recusa em desistir, pode-se dizer que o niilismo existente em Beckett é baseado no conceito de Nietzsche: um niilista não é quem para de crer em tudo, mas quem para de acreditar neste mundo frente a um mundo idealizado. Desta perspectiva, Godot pode ser representado como um tipo de Messias que virá e levará estes personagens para o mundo Utópico que eles idealizam.


- Estragon: Didi

- Vladimir: Sim...

- Estragon: Não posso continuar vivendo assim.

- Vladimir: Isso é o que você acha.

- Estragon; E se partíssemos? Seria melhor para gente.

- Vladimir: Vamos nos enforcar amanhã. Ao menos que Godot venha.

- Estragon: E se ele vier?

- Vladimir: Nós seremos salvos.


Outro ponto interessante a ser ressaltado quanto a presença do nada nas obras é a necessidade desse elemento na obra de Clarice, de forma mais explícita, e o estado de nada entre as projeções e o inteligível em Godot. G.H. durante sua trajetória em direção a grande epifania causada pela barata, começa a abandonar todas as suas maneiras e costumes que a identificavam até então e seu nome não é completamente revelado. Finalmente, quando ela encontra a barata e pratica "antropofagia", no sentido Oswaldiano, ela abandona completamente sua forma humana e absorve os traços da barata, tornando-se uma. Através deste ritual, G.H. é renascida após abandonar sua identidade prévia, sendo agora capaz de reconhecer o seu eu real e adquirir o real conhecimento. A seguinte passagem mostra tal transição. "[...] Eu sempre estivera em vida, pouco importa que não eu propriamente dita, não isso a que convencionei chamar de eu. Sempre estive em vida. Eu, corpo neutro de barata, eu com uma vida que finalmente não escapa pois enfim a vejo fora de mim - eu sou a barata, sou minha perna, sou meus cabelos, sou o trecho de luz mais branca no reboco da parede - sou cada pedaço infernal de mim. [...]"

No que diz respeito a importância de Godot na peça, este pode ser comparado a barata de G.H.. Enquanto a barata foi o impulso necessário para G.H. abandonar a ordem prévia de um mundo projetado, Godot é a única esperança de Didi e Gogo de deixar seu mundo vazio em detrimento do mundo idealizado. Este outro mundo seria a forma de alcance do real conhecimento de si mesmos, ainda que esse conhecimento viesse a partir de uma desordem, do abandono da zona de conforto, sendo este abandono, a paixão dionisíaca, apresentada em ambas as peças.

A partir da análise das obras, é possível concluir que o nada é apresentado como um estágio necessário para a transição da ordem apolínea para a paixão dionisíaca ou de acordo com a alegoria platônica, para o abandono da caverna. Portanto, em Beckett os personagens estão nesse estágio intermediário de nada, expressando o constante desejo de abandono deste mundo e a espera de um outro melhor. Ainda, comparando com a obra de Clarice Lispector, o despir-se das convenções foi a ação de rompimento com o mundo sensível e de ingresso na catábase que levaria ao mundo inteligível. Assim, Godot e a barata podem ser apontados como os elementos causadores deste rompimento e consequentemente, da transição entre planos.

Referências Bibliográficas

BECKETT, Samuel. Waiting for Godot. Groove Press. 1982. 111 p. Trechos traduzidos por Amanda Carraro

COSTA, Gregory Magalhães. A trilogia romanesca trágica de Clarice Lispector. Revista Doc., Rio de Janeiro, nº7, Junho. 2009 .. Data de acesso: 18/12/2016

FURTADO, María Silvia Antunes. O vazio em Clarice e Duras. Revista Garrafa 34, Rio de Janeiro, maio-agosto. 2011. . Data de acesso: 18/12/2016

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco , 2009. 180 p.

NIETZSCHE, Friederich. O nascimento da tragédia. Editora Escala, 2007. 172 p.

PLATÃO. A república. Martin Claret, 2011. 320 p.