Silêncio

Apenas três pessoas estavam presentes no dia do enterro de dona Fátima no Cemitério do Maruí, em Niterói. Eram elas: uma vizinha antiga, seu único neto e o coveiro – que, de fato, nunca conhecera a velha. Fátima tinha 64 anos e havia cinco que lutava contra um câncer no pulmão, causado pelo consumo de incontáveis cigarros. Em seus últimos dias, já não conseguia se levantar e respirar era um trabalho árduo. Foi então que a morte veio como um alívio, um derradeiro suspiro que lhe retirou todo o sofrimento.

Durante toda a cerimônia, os presentes mantinham-se calados. A vizinha, porém,ora ou outra, fungava baixinho enquanto fitava melancolicamente as pétalas da solitária rosa que tinha nas mãos. Pedro, por sua vez, manteve-se inexpressivo até o momento em que a tampa de concreto,empurrada pelo coveiro, deslizou, ocultando totalmente a imagem do caixão. Pedro foi o último a chegar e o primeiro a partir. O sol quente sobre sua cabeça o deixava tonto e o choro de outros funerais próximos, desconfortável. Por isso, a passos rápidos, caminhoudentre o amontoado de lápides e flores secas que o cercavam em direção a saída daquele lugar. O ar era denso demais e gotículas de suor brotavam em sua testa. Era quase meio-dia.

Ainda que tivesse alcançado a saída do cemitério, a atmosfera pesada que o rodeava não se dissipara. Os passos prestes a serem dados, contudo, motivados pela necessidade de... resolução? Resolução de um amontoado de sentimentos que o perpassavam, seguiam por um caminho tortuoso, regredindo, aos poucos, até uma colisão iminente de Pedro com suas próprias lembranças.

Fora assim, contudo, que os próximos quinze minutos de caminhada o levaram até a casa vazia de Fátima. Ele estava lá, em frente à escadaria, olhando fixamente para a casa velha e mal pintada no final do morro, cercada por um portão de ferro enferrujado e um muro de tijolos decorado com o verde do limo e do mato, que sem nenhuma autorização crescia nos arredores da propriedade. Com a manga da camisa, secou o suor da testa e tomou fôlego num último suspiro.

Cada degrau era um dia a menos, um passo em marcha à ré para o passado. A cada passo, o ar ficava mais denso. As memórias o incomodavam tanto que mal podia encarar a figura da criança que ele mesmo fora, parada em pé em frente ao portão, no topo da escadaria. Ainda assim, prosseguiu com a cabeça abaixada, escorando a mão esquerda no chapisco do muro de um vizinho próximo. Quando alcançou o último degrau, estava exausto, mas o cansaço não o fez hesitar. Puxou o trinco e empurrou o portão de ferro, deixando um ranger soar no ar e, por consequência, provocando os latidos do cão da casa ao lado.

A chave da porta se encontrava entre as folhas do vaso de planta no canto direito da soleira. Pedro a pegou, abriu a porta e se viu, de repente, no cenário do seu passado. O lugar era quase igual ao que se lembrava. Quase. Pois os dias passam, algumas coisas mudam e outras simplesmente vão acumulando poeira. Ele mesmo tinha mudado: já não era a criança em pé ao lado da mesa da cozinha, ou o garoto magricela deitado no sofá. Ainda assim, a mudança não isenta a camada de poeira que se deposita sobre as coisas – e esta, sem exceções, se assenta sobre tudo: os livros, a mesa, a cadeira e a alma.

A casa não era grande, nem bonita. Uns amontoados de livros empoeirados se espremiam numa estante no canto da sala – que não passava de um cômodo pequeno e mal iluminado. Do lado direito, havia uma cozinha pequena, com uma única janela que dava para a caixa d’água no quintal do vizinho. Do lado esquerdo, uma entrada que levava a dois quartos pequenos com grades nas janelas. O banheiro ficava nos fundos. Ele esperava que o vínculo com o passado se quebrasse ao esvaziar aquela casa.

Aonde quer que Pedro fosse, a imagem de Fátima o acompanhava. Ela estava impregnada em cada enfeite sobre a estante, no modo como as coisas tinham sido organizadas e nas flores secas sobre a mesa. Quase podia senti-la ali, olhando para ele, sustentando nos castanhos dos olhos um julgamento silencioso. Ele se lembrava de seu último dia naquela casa: era uma noite abafada, quando gritou com as paredes para não morrer sufocado. Então rompeu pela porta e desceu as escadas. Jurou não voltar. Naquela noite os olhos de Fátima estavam serenos.

De toda forma, já não importava. Uma corrente de ar ligeira fechou a porta repentinamente e o baque o trouxe de volta à realidade. Ele respirou e esfregou o rosto, olhando para a entrada. Não era só o vento, era o seu próprio fantasma, que rompera pela porta e descera as escadas, sete anos atrás.

Pedro atravessou a sala até a cozinha, procurando algo para que pudesse começar a empacotaras coisas. Achou uma caixa de papelão e algumas sacolas do lado do fogão. Voltou para a sala e foi até a estante. Seus dedos abriram caminho entre a poeira.

Livros, enfeites, documentos, ocupavam lugar dentro das sacolas. Mas nenhum retrato. Não haviam retratos. Na cozinha, um jogo de xícaras amarelado, copos, pratos, panelas se acomodavam dentro da caixa. Em contrapartida, o vazio sorrateiramente preenchia todo o espaço até que se apropriasse dos cômodos por completo. Havia muita coisa para se jogar fora – em sua grande maioria, papéis: contas vencidas, jornais, calendários passados... uma grande sacola preta de plástico recostava-se na porta da cozinha. Então ele respirou fundo e foi para o quarto.

Tudo cheirava a mofo. Pedro abriu o armário e jogou todas as roupas em cima da cama. Não eram muitas, mas suficientes para preencher metade daqueles grandes sacos pretos. Parou por um segundo para vislumbrar aquela desordem. Nunca tinha visto o quarto dela daquele jeito. Fátima era uma mulher que prezava, sobretudo, a organização. Observar o quarto daquele jeito era como se a imagem dela se dissipasse em meio ao caos.

O que não estava em caixas, estava em sacos. No quarto, apenas sobraram as manchas de infiltrações nas paredes, os móveis e as lembranças assentadas sobre as coisas. Pedro sentou-se na borda da cama, ao lado de um criado-mudo. Sentiu certo incômodo ao sentar-se sobre aquele colchão desgastado pelos dias, então se levantou e ergueu aquela camada de espuma para ver o que havia ali. Entre o estrado e o colchão, repousava um livro.

A capa era preta, de couro surrado, com marcas de um título que outrora fora pintado, mas o dourado se esvaíra com o passar dos dias. No entanto, Pedro não precisava de muito para identificar que livro era aquele, ainda que só o tivesse visto poucas vezes.

Soubera pela jovem que tomara conta da velha que, em seus últimos dias, Fátima não o soltara – ainda que não soubesse ler, as palavras naquelas folhas velhas e enrugadas a acalmavam. E assim morreu: apertando um livro contra o peito, cada vez mais, até o último suspiro. Então suas mãos se afrouxaram.

Mas lá estava ele, encarando um livro velho e indigente que costumava repousar sobre os estrados de uma cama ainda mais velha, sufocando lentamente pelo peso dos dias e do colchão, até que,num primeiro movimento para fora de seu leito, as folhas se desprendessem e caíssem no chão.

De fato, fora isso que se sucedera. Quando o rapaz o abriu, três folhas se soltaram e pousaram sobre o piso frio. O texto tinha pequenos buracos causados pelas traças, tais que formavam um pequeno abismo sobre a superfície de papel e arrastavam as palavras para um vazio inexpressivo. Assim,perdera-se o sentido do que outrora fora dito e restava a incompletude e o silêncio. No entanto, o que podia-se recuperar, nada mais era do que um resquício, uma marca da palavra que se queria dizer, e que de fato fora dita, antes do tempo e das traças a arrastarem para a imensidão de um pequeno e simples buraco. Às vezes, nossos resquícios são apenas uma letra ou um ponto final.

Tentou recolher as folhas, mas estavam tão velhas e quebradiças que, com seu toque, frases inteiras perderam o sentido. Ainda assim, pôs os pedaços que sobraram de volta no leito das páginas amarelas, protegidos pela capa de couro.

Pedro levantou com o livro na mão pronto para guardá-lo entre as coisas que seriam levadas dali, mas algo inesperado caiu de dentro dele. Algo um pouco mais pesado que uma simples folha. O envelope chocou-se verticalmente contra o piso e repousou sem graça no chão.

Olhou com estranheza para o objeto. Ele não possuía buracos como as páginas que recolhera, nem compunha parte daquele todo amarelo-envelhecido das folhas do livro, o tempo não o havia afetado – sua palidez era recente. Pedro abaixou-se e pegou o envelope, colocando-o sobre a capa do livro ainda em suas mãos. O olhar de curiosidade varreu cada centímetro da carta, acompanhando as linhas de papel sobreposto. Virou o envelope intrigado, analisando-o cuidadosamente. Nenhum remetente ou destinatário, apenas o branco, um branco silencioso.

Largou tudo do jeito que estava. Deixou o livro sobre a cômoda e as roupas nos sacos encostados na parede. Acariciou com o polegar o envelope em suas mãos e foi andando para a sala. Esbarrou em algumas coisas pelo caminho, que simplesmente foram empurradas para o lado com o pé. Sentou-se finalmente no sofá e encarou aquela brancura desconhecida.

Havia algo naquele envelope que o perturbava. Talvez fosse por tê-lo encontrado escondido dentro do livro, ou melhor: escondendo-se; desejando fundir-se às páginas deste, esperando por alguém que fosse digno o suficiente para que então se revelasse. Digno? Ele nunca fora. Não aos olhos de Fátima. Então tudo não passava de uma coincidência, um mero acaso, um envelope branco.

Revirou novamente a carta, hesitando em abri-la... até que o fez. Tudo fora muito repentino: respirou fundo e, com as unhas, puxou a parte colada. O som do papel rasgando ecoou como um grito pelo ar. O grito dela. Então os pedaços de papel planaram no caminho ao chão e se chocaram contra como blocos de concreto. Silêncio. Nas mãos dele pousava já não mais um envelope, mas sim um túmulo que fora violado.

Uma rajada de ar quente escapou-lhe pela boca num longo suspiro, sua respiração era pesada e cansada. Com cuidado, tocou o papel que havia dentro da sobrecarta; temeu que o mistério se dissolvesse em suas mãos, que secasse e quebrasse em mil pedaços, escorrendo, por fim, como areia por entre os dedos. Mas o papel não atendeu aos seus temores.

Pedro o foi desdobrando lentamente. A cada dobra desfeita, seus dedos iam se envolvendo mais e mais na terra, uma terra escura e úmida que ia se alojando no vão entre unha e carne, cavando um solitário e sombrio fosso, até que tocasse no próprio rosto de Fátima – pois não haveria mais caixão, não haveria mais nada entre ele e o que estivesse dentro daquela carta. Uma hora tocaria no rosto desfalecido da avó e ela abriria seus olhos – e estes já não seriam castanhos, mas brancos. Brancos como o papel.

No entanto... sua cova estava vazia. Quando o último punhado de terra fora retirado num simples dobrar de papel, ele nada encontrou. Não havia corpo, ou palavras, resquícios ou marcas do tempo – este jamais tocara aqueles papéis. A folha parecia tão sólida, diferentemente de tudo o que havia em sua volta: as paredes frágeis dissolviam-se cada vez mais no tempo e nas lembranças.

Aquela brancura inexpressiva o perturbou de maneira tal que já não podia dizer o que aquilo era. Uma carta? De Fátima? Ele supunha que sim, mas não sabia. A verdade é que jamais soube, porém, ainda assim, nomeou por convenção e necessidade – ele, como todos os homens, tinha a necessidade de teorizar sobre o que não entendia; o desconhecido o assustava. E, justamente por isso, surgiu-lhe o desejo de compreender o que aquela ausência significava ou o que ela justificava. Jamais, porém, teve certeza das palavras que abrigavam no incorruptível silêncio.