Cidade Fantasma


Ravel tinha sessenta anos quando viu o filho morrer. Dois tiros no peito. Quando os pais começaram a enterrar as próprias crias naquele verão, algo sucumbiu sobre suas cabeças, o desejo perene de reerguer as estruturas antes alicerçadas ali. Ravel, contemplativo, assistia a queima de fogos anual. Sentia determinante saudade da infância e, quando vagava pelas noites da cidade como fantasma faminto, entre becos amarrotados de lixo, podia ouvir os gritos. Podia ouvir o horror.

Sua mente era só passado.

Conforme a avenida era ocupada por alegorias, pessoas seguiam a festividade. Brotavam de edifícios em ruínas, ladeiras lamacentas, vielas e becos escuros. Das casinhas na parte alta da cidade e as tapeçarias multicoloridas. Levavam flores em cestas, alguns arranjos enrolados em pedaços de pano. Crianças se equilibravam em muros, enquanto os animais corriam assustados com o barulho dos fogos. Os fogos riscavam o céu, queimando nuvens, com fragmentos dos sorrisos daqueles que ali depositaram tudo o que tinham.

Os olhos escuros intensificados pela noturna festividade. Pessoas se esbarravam, convidavam. Em uma esquina, deram-lhe até beijos e lhe ofereceram flores bem cultivadas.

Ravel lembrava vagamente da sua cidade antes imune. Quando derrubaram as escolas e impediram o culto religioso, os homens mais velhos sabiam o que fazer. Juntaram poucos homens, foram até uma região mais afastada da cidade e atearam fogo nas tendas ali fincadas. Como retaliação, foram todos mortos, chamaram de incidente, fizeram uma cobertura local. Massacraram vilas, pessoas foram separadas de suas famílias. Durante aquele mês alguns homens foram esquartejados e os corpos foram exibidos em praça pública. Mulheres foram estupradas dentro de casa na frente de filhos e maridos. Os mais velhos tiveram que enfrentar severas punições em nome de quaisquer infrações cometidas pelos mais novos.

Ravel era garoto quando viu o pai, um comerciante de trigo, ser baleado pelas costas. Suas duas irmãs foram mandadas ainda cedo para uma cidade vizinha. Ficou com sua tia, a quem atribuía o papel de mãe. E, junto com a sua mãe acolhida, passaram quinze verões até o vento soprar sobre os calabouços da cidadezinha.

Sua infância não foi uma das piores. Brincava de gude, pega-pega, esconde-esconde, polícia e ladrão e baralho. Quando sua tia estava de bom humor o levava para uma fazenda com um grupo de amigos. Contavam amenidades se esgueirando pela cerca pálida, o solo fértil que parecia não ter fim. Às vezes ficavam em silêncio mastigando uma fruta, fitando as enormes laranjeiras do lado de um casebre, e batiam os pés um no outro. Pagavam cipó e ameaçavam uns aos outros de surra, imitando os próprios pais.

Simone era o nome da sua tia, uma moça de temperamento arisco. Tinha seus vinte e dois anos, os dentes alinhados, jeitosa, mas comum. Perdeu o pai cedo também. Talvez fosse um infortúnio familiar.

Ravel sempre lembrou, em seus pensamentos mais profundos, da moça jovem e sofrida que fez muito com tão pouco. Tinha sim seus sonhos latentes que foram pouco a pouco largados pelo caminho árduo que lhe obrigaram a percorrer. Quinze anos ela sonhou com uma casa, uma família, o que lhe restara foi um bastardo.

Ele era só um moleque magricelo, cheio de feridas, travesso.

Às vezes sentia o incômodo. Parecia algo. Esse algo banalizado e que ao longo dos anos persiste mesmo sem propósito. Esse pensamento descartado, o sentimento não nutrido. Abandono. Simone havia lhe proporcionado a chance de viver com as próprias pernas, enquanto a vida que ele lhe roubara decerto não a permitiu andar sozinha.

O que eu fiz? Cada “tic”, cada empurrão. Os muros altos com filetes de fogos, ”tic”. Uma brisa o aconchega, “tic”. Uma castanheira, dois palitos de fósforo no bolso, um banco de concreto, um casal se beijando, cinco pessoas chorando, um homem pedindo esmola, dois anéis em um dedo, “tic”. Um balão vermelho no céu, “tic”. Desce por uma ladeira com paralelepípedos, tudo sente. Sua dor, sua mão e costas.

Segura algo no bolso, esse algo sem valor aparente. Como o algo que sentia, como sempre sentiu. Esse lugar vazio no banco, esses beijos camuflados. Esses bolsos são tão fundos, refletia.

Lágrimas desciam sem pressa, borrando a visão exuberante daquela noite festiva. Chorava por Lucille também. Do seu ingênuo amor. Qual é o papel dos mais velhos senão ressentir?

Todo mundo consegue o que quer, “tic”.

Nada o incomodava e nem ninguém o atingia. Logo as pessoas se enfurnavam em bares, deixando a praça vazia. Tomou seu lugar espaçoso no canto do banco de concreto. O casal foi embora. Os pássaros apareceram. Sentia um peso no corpo todo. Lá Ravel sabia, “tic”. Ravel tinha consciência plena de tudo. Das suas francas limitações, das feridas infligidas sobre a pele flácida, “tic”.

Mergulhou timidamente sua mão esquerda em um bolso e pescou de lá algo. Segurava-o com o cuidado de um pai ao segurar um filho recém-nascido. Sua mão direita fazia sombra em cima do colo, “tic”. Levantou os olhos pela primeira vez em muito tempo, e ao levantar também o braço, fechou-os pela última. O sol, agora nascente, ricocheteou no seu relógio, “tic”. Um filete anelar, pequenas faíscas de luz soltavam no seu nariz. Abriu os olhos. O rosto dividido. Não era tarde demais, era bem cedo. Um balão caiu do céu.

Pegou algo pela mão, os dedos calejados se enrolavam em uma trama de trêmulos atos. Todo mundo consegue o que quer. Ao mendigo suas esmolas, ao casal seus beijos, aos passantes o festejo.

O balão caiu do céu. Sua mão caiu sobre o colo novamente. O relógio entregava as horas, as lágrimas entregavam a tristeza, os passantes lhe deram flores.

Cada um serve a um propósito. O seu não era àquele.

Afogou algo no bolso fundo demais. Ravel fitou o relógio, as persianas fechadas nos edifícios, os casais sorrindo baixinho, o sol sobre o ponteiro enferrujado, um moço apressado.

Ravel decidiu duas coisas naquela manhã: que tinha tempo e que ainda não era tarde demais.


“tic”