Lena Carioca


Apesar das nuvens negras que toldavam os seus dias, e todos os espasmos de uma dor lancinante que faziam-na revirar-se na cama, de um canto ao outro, nua e fétida, incapaz de pregar os olhos, achava-se frugalmente disposta a ir à igreja naquele sábado à noite. Já havia recusado por demais os convites de Maurília – e, além do mais, apesar das perdas, havia uma sensação, por mais embrionária que fosse, de que o espetáculo tragicômico da vida necessita de uma continuação. Porém, de maneira alguma colocaria a sua melhor roupa ou maquiagem, se é que ainda tinha plena capacidade mental para escolher algo, e encontrar qualquer coisa no meio de tanta bagunça não seria fácil também – roupas jogadas ao chão, travesseiros e lençóis, papéis e fotografias, pratos de comida e de bebida, tocos de cigarro, não importava, Deus seria obrigado a aceitar toda a sua desordem.

Como se já não fosse horrível o bastante, o bife queimado na frigideira amassada. O sol havia se posto há minutos, e pequenos pontos brilhantes no céu já se faziam visíveis, indicando-nos que seria uma noite bastante estrelada, típicas das noites de veraneio, com o plenilúnio incidindo os seus feixes pálidos e radiantes sobre a terra. Mas onde será que Matheus está já que não em seu quarto estudando para a prova final de segunda-feira? Mas que menino vadio! A pedagoga ligara há três dias para matraquear sem propósitos e uma impaciência subiu-lhe a garganta feito um vômito acre – “Oh, mamãe, Matheus está tão agressivo com os colegas, com os professores. Não quer saber de estudar, deixa as provas em branco. Nós soubemos do ocorrido, lemos o jornal, assistimos o jornal do meio-dia e sentimos muitíssimo, pois Alexandre sempre foi muito querido pela nossa instituição, mas não pode servir de desculpas. Na verdade, deveria servir de incentivo para que a Senhora conversasse com ele. Acreditamos na mudança e no bom senso...” Mamãe, oh céus! Queria ter gargalhado das palavras desta mulher! Ser mãe, o que era ser uma mãe? Não, era uma desgraça esculpida em corpo de mulher por algum tipo de Deus esquizofrênico – o marido para os braços da mulher, sua ex-amiga, da igrejinha das mulheres do véu; acabara de enterrar um filho há poucos dias e o mais jovem servia-se como puta para banquete de traficante. Agora a porta se abre, Matheus avisa a sua chegada com uma voz fatigada que, à medida em que ele caminha à cozinha, torna-se mais audível. O suor escorre em seu corpo corado de sol, havia herdado a palidez de seu pai, os pés e as mãos imundos de poeira – estava jogando bola ao menos, coisa de macho, o filho tinha pelos no saco. Não iria questioná-lo, boca calada não entra mosca nem amargura. Limitou-se a pôr a comida no prato – um arroz papado feito na hora, um feijão de dias no congelador e aquele bife que causava náuseas só de olhar. Talvez ovos, será que ele poderia querer? Não, não. E nem alguns tomates também? Não, de modo algum. Ambos sentaram-se à mesa, silenciosos, apenas o arranhar do garfo e das facas tocando os pratos podiam ser ouvidos, e ora ou outra o canto da cigarra, um suplício. Tentava triturar a carne dura, encarava-o (sim, usaria também um brinco, já não queria ir à igreja como um trapo). Que inconstantes suas vontades, como dizia a Sra. Cardoso! Era uma festividade de irmãs, mas será que poderia convidá-lo, o seu próprio filho? Não, não seria uma boa ideia. Droga! A carne emborrachada, carne de segunda. O seu olhar atravessou a mesa, pousou em Matheus, que parecia não degustar coisa alguma – se é que havia algo a ser degustado –, mas apenas engolia como o pai e bebia o resto do suco de caixinha. Ele é o reflexo do pai, talvez seja como o pai, Deus o livre de ser como aquele homem, inútil e insensível. Levantou-se, ele, dirigiu-se à pia e despejou o prato sobre ela. Para onde ele iria agora?


– Vou à igreja, Maurília me convidou hoje cedo mais uma vez – E logo após dizer, queria não ter dito nada, nada.

– Os caras estão jogando no campo, vou pra lá.

– Tudo bem, tome cuidado.


Matheus aproximou-se, tocou-lhe sua cabeça ternamente com os lábios. Amava-a, sua mãe, tanto que às vezes anelava sua morte só para pulverizar essa massa terrível de sofrimento que só parecia inflar dentro de si. Manhã de terça-feira, céu cinzento, ar estático, vestido tão preto quanto a sua pele, não havia muita gente para dizer-lhe últimas palavras, e os coveiros carregando o corpo dentro daquele caixote de madeira rumo a sua cova. O tormento do ato final, quando ela atirou-se ao caixão, choramingando feito criança em um berço à noite com medo de fantasmas e implorando ao coveiro que a enterrasse junto ao corpo dele, do jovem cuja linha vital fora cortada sem razão alguma numa noite qualquer por sabe Deus o porquê.

– Não se preocupe, mãe. A polícia já foi embora, acha que eu ficaria na rua com os caras com as armas no bolso? – ironizou, não queria preocupá-la, sua mãe – Qualquer coisa, tô lá!

Por uns instantes, pôde ouvir os seus passos em direção à porta. Ao sair, até as cigarras pararam de cantarolar – em todos os aposentos, novamente, o silêncio tombou miseravelmente. Tocou levemente as costas de sua mão na testa, ouvindo o tamborilar do seu coração – levante-se, levante-se, tum tum, erga-se, o espetáculo tragicômico da vida necessita continuar, como costumava dizer a Sra. Cardoso –, e pôs-se de pé, indo até o quarto novamente, uma bagunça. Encontrou um vestido branco e um tamanco velho debaixo da cama, aquele que sua irmã havia lhe dado de presente de aniversário há uns três anos. Agarrou a sua bolsinha e atirou uns trocados que estavam em cima do seu criado mudo dentro dela – mas não era para obras da igreja, e não entregaria dinheiro algum para as obras da igreja, Deus teria que amá-la mesmo fingindo não ter um centavo no bolso.

As crianças brincavam de pega-pega. Notou que finalmente a prefeitura decidiu consertar os problemas dos postes de iluminação, o que possibilitou a saída dos seus vizinhos para cervejas e jogos de sueca e também para confabular sobre o que lhes viessem à mente de um modo bastante agradável. Ela caminhava, caminhava através da ruela, e ninguém, ninguém parecia importar-se com o ocorrido há uma semana – era quase indiferente a morte de alguém em um local onde já é bastante vulgar acordar com um corpo na porta de sua casa, embora especulassem no silêncio de suas camas coisas como a que a dona Francisca e a dona Claudete faziam neste exato instante:


– Ouvi dizer que ele andava com os traficantes. Será?

– Sei lá, mulher. Ninguém toma um tiro na cabeça por nada.


Não olhou para trás, poderia encará-las com toda a sua estatura de mulher experiente, mas desintegrava-se tal como manteiga em panela quente e, ao dobrar a esquina, duas meninas, de mais ou menos dez ou onze anos, respectivamente, quase colidiram com aquela figura que mais parecia um cadáver andante, e resmungaram algo como “Que inferno, quer desfilar no meio da rua? ” – Vadias!, berrou bem alto para si, paralisando o andar e inspirando suavemente – merda de gato, lixo acumulado, restos de um rato em boca de cachorro –, e soltou o ar, retomando sua caminhada. Ao emergir do beco, dois policiais armados à paisana deram-lhe um “boa noite, senhora”, mas nada respondeu. Sim, também pensava, às vezes, que fora um deles, um daqueles homens que todos os dias ficam à paisana esperando a oportunidade de descontarem as fúrias pessoais em qualquer preto suspeito que aparecesse – e conseguiu lá identificar um certo titubear na voz de um deles, um nervosismo? Sim, conseguiu, pois eles a conheciam também, todos a conheciam agora, a mulher cujo filho assassinado e sabe-se lá quem o matou. Mas arrancar a grossa estampa que obliterava a verdade sobre a morte dele, do seu filho, não o traria de volta à vida. E ele não era um Lázaro ou um Jesus de Nazaré, um homem sortudo ou um homem “iluminado” – faça-me rir –, ou agora um espírito qualquer que pairava à terra para lhe indicar as pistas corretas que a fizesse encontrar o verdadeiro assassino – não, não é um filme de terror ou uma novela das nove –, era apenas um qualquer, mais um desses que estava no “momento errado e no instante errado” em que ocorreu – mais um – embate entre os policiais e traficantes. Era mais um zé que queria ser alguém, um zé ninguém.

O campo de futebol estava vazio, ninguém lá. Garotas em suas saias curtas e blusinhas cavadas davam risadas abafadas aos rapazes que ajuntavam-se a elas.


– Conheço uma casa abandonada, uma casa escura ao norte daqui. - disse um rapaz negro de cabelos louros.

Olhou brevemente de relance – não, Matheus não está lá!

– Cê nem sabe pra onde é o norte, garoto – respondeu uma das meninas do bando que aparentava ter uns quatorze anos, mulata de cabelos lisos.

– Mas sei onde é a casa, se vocês as novinhas quiserem dar um teco!

– Cadê, quero ver! – berrou uma, um pouco embasbacada. E o rapaz mostrou-lhe um pacote, mandando-a falar mais baixo e sorrindo maliciosamente.

– Está bem, está bem, espera só ela passar que a gente vai. – sussurrou em resposta.


O silêncio imperou por alguns instantes enquanto ela passava pelos jovens. Queria poder desejar-lhes boa sorte e pouca vida, seguiu o seu caminho, sem tornar a olhar de relance os jovens que dariam um “teco” e transariam na casa abandonada ao leste, não ao norte. Ou será ao oeste? Uma brisa soprou-lhe os ouvidos ao chegar em um ponto de ônibus e, juntamente com esta, como se arrastado, os berros do pastor proferindo alguma coisa sobre a prostituta que lavou os pés de Jesus com óleo. Cruzou os braços, deixou-se desfalecer os movimentos. Abriu a bolsinha, nervosamente, um maço de cigarros, um isqueiro que sabe-se lá estava bom ou não, um batom velho e terrivelmente gasto, uma bíblia pequena e uns trocados – ah, os trocados! Olhou para cima, descansou os olhos na totalidade do céu, nos pontinhos fulgurantes ao redor da lua. Ele morreu há uma semana em algum lugar, e não há uma outra vida, não há uma outra realidade. Ele morreu, deveria morrer também? Sim, e o caos na humanidade, um caso de doença crônica. Olhou para trás ao ouvir um grave ronco de um ônibus aproximando-se. Elevou o braço direito apontando o dedo indicador, e o ônibus reduziu a velocidade até parar ante a si. A porta abriu-se, e encaminhou-se a ele novamente ouvindo o berro do pastor bem longe – Sai pra lá!, pensou. O motorista sorriu, conhecia-o, ele sempre a buscava todas as manhãs quando ia à casa da Sra. Cardoso próximo à Cinelândia, retribuiu-lhe o sorriso embora amuado, com um laivo de melancolia no canto esquerdo do lábio – se não a conhecesse bem, se não falassem tanto sobre esta mulher, apesar de não ser nada, dir-se-ia que sofre por amor, pelo abandono de um amante. Sentou-se ao fundo do ônibus, deixou-se calar todas as vozes que a aborreciam a mente com a canção mais triste do mundo que tocava naquele instante na rádio do veículo.

O ônibus parou em seu ponto final, Central do Brasil. Ela desceu antes mesmo do motorista ter a oportunidade de chamar-lhe o nome e fazer questionamentos previsíveis sobre os seus últimos dias, sobre os últimos dias da mulher de pele escura que perdera o filho sabe-se lá por quê. Nas ruas, pairava harmoniosamente uma tênue sensação de um profuso movimento – transeuntes dirigem-se para todos os lados; camelôs berrando as promoções do dia; mendigos sentados ao chão pediam dinheiro ou comida; aqui levantou-se um rapaz do chão e atravessou disparadamente a pista aos gritos e quase foi atropelado por um táxi, ninguém se importou; acolá, um rapaz tentava acalmar o seu amantes aos beijos e abraços após este ter sofrido um assalto há poucos minutos na Rio Branco; os olhos continuaram a percorrer o espaço em que se encontrava à medida em que os passos tornaram-se mais brandos. Contemplava minuciosamente todo o espaço, o palco da vida humana. Os carros passavam a seu lado enquanto andejava na calçada de pedras, oh, céus, como tudo aquilo era diferente à noite, tudo era mais selvagem, imoral, com todas essas luzes incidindo sobre o seu corpo, e a lua, estática em um céu isento de nuvens, desnuda e sem vergonha, sem toda a correria dos dias vulgares.

No bar, as luzes eram todas eróticas. Nas paredes, fotografias e quadros de épocas passadas retratavam a agitação do cenário carioca. Algumas mesas e cadeiras ocupadas por gente de todos os tipos, dos mais jovens aos mais idosos, que bebericavam cervejas ou taças de vinho, comiam petiscos, gargalhavam de assuntos engraçados ou debatiam a conjuntura política atual – um partido ou outro? Oh, tanto faz! –, garçons perambulavam em uma correria risível servindo com um gingado despojado. Ela, então, sentou-se em uma mesa ao canto, uma mesa para dois. Embora não havia posto o seu melhor vestido ou sapato, ou arrumado muito bem o cabelo ou feito as unhas, e ainda tinha uma bíblia em sua bolsa! Mas ela sentia-se mais leveza, uma leveza insustentável aos poucos penetrava-lhe as entranhas. O garçom aproximou-se, perguntou:


– Boa noite, você vai querer alguma coisa?

– Sim... – E percorreu os seus olhos castanhos sobre o cardápio de bebidas. O que poderia beber? Uma cerveja, talvez. Sim, seria uma cerveja, e tocou com os dedos o lado inferior dos lábios, mas não... talvez um gole de vinho para que não pensassem que seria mais uma daquelas velhotas solitárias que só basta uma cerveja para dançar feito uma índia sobre uma mesa.

– Então, vou querer uma taça de vinho.

– Anotado! – sorriu o garçom e deixou a mesa.


Ela olhou novamente para dentro de sua bolsa, pôs-se a contar os seus trocados discretamente. Sim, tinha o suficiente. Deixou-se relaxar, pousando os seus braços sobre a mesa e inclinando um pouco para explorar mais todo aquele espaço subversivo e estonteante. Dois homens bastante idosos escolhiam canções de coração partido no jukebox; um casal de jovens de mais ou menos vinte e poucos anos, um de frente ao outro em uma mesa, acariciavam-se e, supostamente, trocavam juras de amor; um homem sentado próximo ao casal, cabelos castanhos e pele morena, encarava-a; e as fotografias de tempos não mais... Oh, Jesus Cristo, pensou, voltando o olhar para o homem de cabelos castanhos e pele morena que a encarava. Ele sorriu, mas não pode retribuir-lhe tal gesto, pois o garçom agora entrara em sua frente, tapando aquele estranho que acabara de fazê-la querer sorrir com tamanha vontade. O rapaz depôs a taça de vinho sobre a mesa, sorriu e a deixou só. Novamente ela tentou procurá-lo com os olhos, o estranho de cabelos castanhos e pele morena, mas não conseguiu encontrá-lo. O jovem casal levantou-se, de mãos dadas, para dançar a canção para os corações partidos que os velhos haviam posto no jukebox. Ela segurou a taça com a mão direita, sem um traço de finura, e levou-a à sua boca, deixando que um pequeno gole caísse para dentro de sua garganta. Cerrou os olhos suavemente e sentiu-se novamente insustentavelmente leve, tal como um saco plástico ao vento deve sentir-se. Suspirou fundo, tornou a bebericar novamente outro gole daquela bebida doce que a deixava leve. Uma brisa percorreu-lhe a nuca, e no ombro sentiu o pesar de uma mão tocando-lhe suavemente.


– Posso me juntar a você, seja lá qual for o seu nome?


Por cima do ombro, conseguiu vê-lo, o homem de cabelos castanhos e pele morena, estático atrás de si. Ela sorriu com o canto dos lábios, não havia motivos para não fazê-lo.


– O meu nome é Lena Carioca.