XXII


Que glória resta ao homem-macaco

Que concebeu o cérebro automático

E se livrou de todos seus fados?



Macaco embalado a vácuo;

Protegido das intempéries

E da própria natureza preservado



Se alimenta de pão – Carboidrato materializado –

Que com a boca não deve ser saboreado

Não, os dentes primatas não podem nunca apodrecer.



Cidadão distinto do mundo civilizado,

Acumula dos mais diversos títulos e atributos

E exibe, vaidoso, pelugem sempre recém-cromada.



Proclama, aos sábados, os fatos inquestionáveis

Que lhe diferenciam de seus primos selvagens,

Os saguis, do miserável hemisfério de baixo:



1 - O tratamento dado aos fluidos

2 - O número anual de suicídios

3 - O juízo sobre o mundo natural



Seus parentes, por mais que símios,

Não se portam como a gente do Ártico

E povoam florestas dúbias e dunas insensatas.



Já o homem-macaco habita a Cidade Definitiva,

Que foi projetada por arquitetos elétricos

E é a síntese de todo o Urbanismo



Em Jericó ele cultiva a mente e o corpo

(Trabalhar se tornou antiquado

Desde o advento da Ordem Mecânica)



Nasce e vive para se entreter

E o Mecanismo lhe assegura

A fabricação de todas as artes



Poesia é escrita por análise combinatória

Pinturas são impressas aà laser e em alto relevo

Música não há mais. (Foi vetada por causar surdez súbita)



Verdadeira Ogígia a morada primata

A vida é eterna, a comida não custa

E a chuva jamais toca um só cabelo



Nenhum mal paira sobre a vida do homem-macaco

Ele está livre para viver sua existência pacata

Em um mundo opaco e sem esperança de morte.