O Terceiro Rumo



Hoje fui agradecida três vezes por dois atos. E por essa gratidão me valeu a pena o trajeto difícil que fiz hoje para chegar em casa. Esse terceiro agradecimento me fez entrar no espaço mais profundo do que seria aquele simples "obrigado" dito. Pois agora nele havia olhos. O senhor me disse pela segunda vez o "obrigado" me olhando nos olhos, e se demorando nos meus, porque ele não queria que fosse um agradecimento qualquer, e não o era. Esse senhor, que tem pinta na bochecha e as mãos em veias grossas, me agradeceu a primeira vez quando eu disse "senhor, senta aqui", e me levantei. Quando levantei vi que não havia bancos amarelos, só aqueles lá trás onde ninguém sabia que tinha, e que ocupava nele dois jovens dormindo na descida da serra Grajaú. Eu também dormia, e como quem abre os olhos do nada - mas vê -, vi que aquelas mãos de veias grossas seguravam-se em pé no ônibus que não lhe deu espaço. Quando sentou, pude ver seu rosto além das mãos, e então vi a pinta preta em sua bochecha. Em pé, vi que perto de mim tinha outro senhor, que entrou e fez do ônibus cheiro de biscoito amanteigado. Ele entrou e em pé se encostou num canto do ônibus para comer seus biscoitos. Em pé, eu vi o saco de biscoito se acabar, outros passageiros dormirem, e muitos não verem nada, nada mesmo. Não viram que havia sol por entre os galhos das árvores, não viram que tinha um senhor em pé segurando a bolsa, os biscoitos e a própria idade. Os passageiros, em cegueira triste, não viam o que estava dentro, nem fora do ônibus - não olhavam por fora da janela e nem o que estava à frente. O que, então, viam, senão a dormência triste de si mesmos?

O trajeto que fiz hoje não só foi difícil porque o cotidiano em uma cidade perigosa é difícil e exaustivo, mas porque essa dormência faz nossa viagem pior. Nossas idas e vindas ficam piores e inundadas de tédio e egoísmo, se não for o mesmo. Os passageiros estão sempre a fechar os olhos; a ignorar as cores do banco azul ou amarelo, e a esquecer da existência delas, e não só delas, como também de quem senta nelas. É difícil ver quando se está cansado, quando, de súbito, se desperta quando alguém entra dizendo "desculpe atrapalhar o silêncio e conforto da sua viagem, mas o camelô vem trazendo...". Mas ele não deveria pedir desculpa não, eu que deveria agradecer, mas esse agradecimento, dos três que foram dados nesse ônibus, foi o faltante. Eu deveria agradecer por me despertar, e romper com a minha dormência que impediu meus olhos de verem o que eu não deveria deixar de ver. Vi que o senhor da pinta na bochecha me esperava para acordar, porque no fundo, quem quer mudança, sempre espera que algo acorde. E mudou mesmo, nos deslocamos: ele sentado, eu em pé. Depois, mesmo com os olhos em olheira porque havia acabado de acordar pra vida, pude sentir o cheiro amanteigado que deixaria passar se estivesse por aí no meio do nada, ou em mim mesma, ou cansada demais de tudo para deixar os olhos abertos. Do lado do senhor que ocupou meu lugar, a menina estava acordada e foi ajeitando a bolsa e os braços porque iria descer. O senhor pulou para a cadeira do canto e esperou que eu sentasse. Mas como num último biscoito restante do pacote, olhei para o outro senhor que seguia viagem encostado na sua, e mais uma vez vieram os olhos. Apontei para o banco e ele ajeitou tudo na mão e veio em direção à cadeira que de azul, virou amarela, por fim. Aqueles dois bancos foram os prioritários que, em ausência, abrimos espaço para tê-los ali. Foi então que o senhor da pinta na bochecha entendeu, me olhou a segunda vez e disse enquanto o outro se aproximava: obrigado.

Voltando para casa hoje, não pude fazer meu trajeto de sempre porque havia um incêndio de ônibus no meio do caminho, e no meio do outro havia risco de arrastão na Linha Amarela, então arrancando jeitos de conseguir me deslocar pelo Rio de Janeiro, parei num ônibus que peguei no centro da cidade. Hoje era pra ser inverno, hoje era pra eu passar em outros todos bairros que não passei, hoje era para eu ter chegado em casa duas horas antes do que cheguei, hoje não era pra eu ter saído de casa, hoje não era pro ônibus estar quente e nem hora pra estar cheio. Mas cada dia é um dia, qualquer dia vira hoje, e daqui a pouco "desculpe interromper o silêncio da sua viagem, mas o camelô vem trazendo...". Então a gente acorda e vê o que precisa ser visto, que infelizmente a gente vê, e que infelizmente a gente não vê. A boa experiência também está em rever. Revi minha viagem inaugural e encontrei três agradecimentos em dois atos. E esse agradecimento a mais foi a coisa mais bonita da minha viagem. Ver, por estar acordada, uma voz falando por duas fez valer a pena abandonar a dormência do século e até comprar uma bala halls de duas por uma. Depois da minha bala na boca, quando o último senhor se sentou, ele me agradeceu e segurou minha mochila.