Cinema e percepção na era da reprodutibilidade técnica


O presente trabalho pretende fazer uma leitura do ensaio A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica de Walter Benjamin, especificamente sua reflexão sobre o cinema e sua captura da atenção. O ensaio mostra de que forma o cinema usurpa nossa percepção e a enfraquece, causando um dano irreversível nas faculdades mentais. O cinema é um grande propagador de sensações e ao mesmo tempo um enunciador de um imperativo, um “olhe para cá” que volta nossa completa atenção ao filme. Depois da fotografia, o cinema é um tipo de reprodução técnica que, segundo o filósofo e leitor de Benjamin, Christoph Türcke, se tornou tão difundida em nosso cotidiano de tal maneira que, paulatinamente, transforma-nos em seres dependentes de estímulos audiovisuais, chocando-nos e criando em nós uma compulsão traumática.

Para este trabalho, foi realizada primeiramente uma comparação entre as duas versões do ensaio A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica (1936 e 1939), com objetivo de estabelecer uma noção da variação entre a forma original (1936), e a segunda versão alterada (1939), para determinar quais conceitos foram mudados e lapidados nesses três anos de intervalo entre as versões. O texto de Benjamin é basilar em muitas áreas e sua contribuição para a transformação da arte no século XX é notória. O ensaio contrapõe a mudança de percepção da arte manual (irreprodutível) para a arte técnica (reprodutível) incluindo as consequências sociais desse processo de adequação das formas de reprodução. O envolvimento da reprodução técnica com a perda da aura se dá quando o seu original não só torna-se reproduzido, como no caso da fotografia de pinturas, comprometendo sua autenticidade, mas de fato inexiste, como no caso de filmes e discos de música, onde a obra de arte não depende de um suporte inicial.

Compondo a bibliografia que abrange a correlação entre cinema e percepção, será utilizado o livro Sociedade excitada do filósofo alemão Christoph Türcke, mostrando como ocorre o enfraquecimento da nossa percepção, o “olhe para cá’’ que detém nossa atenção. Tal captura faz com que o sensório humano (já paralisado) tenha um súbito insight do objeto cultuado (diante do qual ocorre uma epifania); porém, tal experiência acaba sendo degradada, já que é feita a partir de uma retina artificial (a câmera), tornando o objeto em si incapturável, sem aura, sem essência. Outro livro aplicado foi Benjamin e a obra de arte: técnica, imagem, percepção de Detlev Schöttker, que demostra quais foram as fontes e leituras de Benjamin, o debate de sua época e sua recepção ao longo do século XX.

O diagnóstico de Benjamin foi profético, alertando problemas já percebidos por ele na década de 30. Isso levanta a questão: até que ponto seu parecer sobre a transformação da percepção é válido nos dias de hoje? Como ele pode ser encarado? O que poderia ser feito para evitar o enfraquecimento de nossa percepção?



Introdução

A Filosofia do belo na arte é o termo aplicado a partir do século XVIII para designar o campo da teoria Estética , onde o ensaio A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica de Walter Benjamin é figurado. Benjamin foi um dos primeiros autores a falar sobre as mudanças ocorridas nas formas de reproduções (de manuais para técnicas) correlacionando a percepção, cultura e artes. Fortemente inspirado por autores marxistas e ligado à Escola de Frankfurt, Benjamin com seu olhar perspicaz, inovador e extremamente visionário sobre os produtos culturais de massa aplicados à reprodutibilidade técnica, escreveu a primeira versão do ensaio A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica entre 1935/1936, posteriormente realizando diversas alterações que culminaram em sua última versão de 1939, publicada em 1955, após sua morte (1940).

Técnicas de reprodução como processo artístico: Reproduções manuais versus técnicas

Ao longo dos séculos houve diferentes formas de técnicas de reprodução. Em seu primeiro tópico do ensaio A obra de Arte, Benjamin nos mostra como “a mudança que as imagens fabricadas tecnicamente provocam na percepção e na arte.” (SCHÖTTKER, 2015, pág. 45) mostrando-nos como nós, seres humanos, gostamos e sentimos a necessidade de imitar.

Os objetos oriundos de reproduções manuais são originais e auráticos , peças únicas criadas, fazendo com que o conceito de autenticidade seja constituído, tornando impossível sua imitação. Benjamin, entretanto, deixa claro que as únicas formas de técnicas de reprodução em série na Antiguidade foram os bronzes, moedas e terracotas; quaisquer outras formas de reprodução técnica eram peças únicas. Com o passar dos séculos, a xilogravura, imprensa, litografia e entre outras formas de técnicas de reprodução foram inventadas fazendo com que jornais, por exemplo, pudessem ser reproduzidos tecnicamente. “Ao multiplicar a reprodução, ela substitui a essência única por uma essência serial. E, na medida em que a reprodução permite que o receptor tenha acesso à obra em qualquer circunstância, ela a atualiza” (BENJAMIN, 2012, pág. 15).

As reproduções técnicas então sob o regime da não-autenticidade, pois, cada vez que são reproduzidas sua essência se esvai, sendo apenas cópias vazias. Segundo Benjamin, a não-autenticidade de uma cópia, derivada de uma reprodução serial, muda a função social de sua existência.

Podemos perceber então, a contraposição entre reproduções manuais auráticas e autênticas versus reproduções técnicas sem aura e não-autênticas. As técnicas de reproduções em série apesar de já existirem em um contexto anterior ao século XlX, com o advento da fotografia e especialmente do cinema, essas reproduções se tornam muito mais eloquentes por desempenharem um papel de produto cultural de massa, moldando nossa percepção até os dias atuais.



A lente de uma câmera como retina artificial

Criada pelo homem a fim de representar a ótica humana, a lente de uma câmera tem a intenção de recriar a sensação dos olhos, sendo então, uma “retina artificial”. Na tentativa de parecer com o olho humano, ela tem se dá de forma mecanizada e “sobre-humana”.

Diferentemente do olho humano, que fixa sua atenção em uma determinada imagem por um tempo limitado captando sua retina nitidamente apenas no centro do foco, a lente de uma câmera é incansável, capta diversos ângulos homogeneamente.


“A câmera, ao contrário, não se cansa. Suas imagens, quando bem-sucedidas, são todas elas e cada uma em particular, até o ponto mais extremo, de uma nitidez homogênea, sua distorção marginal é quase imperceptível, e o olho humano pode posteriormente, talvez com o auxílio de uma lente de aumento, estudar cada instante fixado através da fotografia e descobrir nele todos os insignificantes matizes (...) que lhe escaparam ou que nunca lhe chamariam a atenção no lugar e na posição originais.” (TÜRCKE, 2010, p. 177).

Observemos a tentativa cada vez maior do homem de transcender seus próprios limites, moldando a realidade em busca de aproximar as nossas sensações táteis, de algo criado e manipulado pelo próprio homem. As sensações estão em tudo. Sempre estamos em busca de algo além de nós, encarado como algo sagrado e transcendente, como uma “salvação por meio de imagens” para nos trazer um alívio, que nos conforte, e um aparato visual é uma ferramenta muito importante para esse processo.

Podemos então concluir, que os meios de reprodução (tanto manuais quanto técnicos), os quais as imagens são difundidas, sempre foram e sempre serão necessários para os homens.



Captura da nossa percepção pelo cinema

Desejo convidá-los neste momento a olharmos com nossa “objetiva-não-artificial humana” para o objeto em que essa problemática das imagens se agrava: o cinema. “O filme serve para exercitar o homem nas novas percepções e reações exigidas por um aparelho técnico cujo papel cresce cada vez mais em sua vida cotidiana. Fazer do gigantesco aparelho técnico do nosso tempo o objeto de inervações humanas” (BENJAMIN, 1936, pág. 174). Partindo dessa afirmativa de Benjamin, observemos quais impulsos em nossa percepção o cinema desperta e de que maneira reagimos.

O cinema é um propagador de sensações e um enunciador de um imperativo, um “olhe para cá” em busca de trazer a experiência do “aqui-e-agora”. Esse imperativo se dá em cada corte de imagem, “como um golpe óptico” no espectador, um completo choque imagético. Com um ‘estalo de atenção’, essas imagens voltam nossa completa atenção ao filme, de maneira que “a câmera o faz mediante superfícies quimicamente prepara¬das” (TÜRCKE, 2015, pág 52) prontas para embotar nossa percepção e enfraquecê-la por conta da sua contínua excitação acarretando danos para nossas faculdades mentais. As imagens penetram em nós com uma intensidade extremamente danosa. Nossa óptica segundo o “olho mecânico da câmera” (que não distingue percepção de representação) nos induz a uma perspectiva tecnicamente manipulada.


“(...) no estúdio o aparelho impregna tão profundamente o real que o que aparece como realidade ‘pura’, sem o corpo estranho da máquina, é de fato o resultado de um procedimento puramente técnico, isto é, a imagem é filmada por uma câmera disposta num ângulo especial e montada com outras da mesma espécie” (BENJAMIN, 1936, pág. 186).

Diante de toda reprodução técnica, o que antes era único e aurático (com as reproduções manuais) acabou se tornando uma compulsão à repetição, e a essência do objeto em si, o objeto cultuado, se esvaiu, de maneira que não é possível mais a experiência de sua aura, tornando-se incapturável. A óptica irreal que a câmera nos dá, provoca todo esse enfraquecimento de percepção, toda a sensação de entendimento, para que haja de alguma maneira, algum conforto e tranquilidade nas imagens representadas.



O valor de culto das imagens

Partindo de uma ideia agambeniana de que o homem acredita nas imagens quanto imagens, pensemos de que maneira isso ocorreu ao longo da história da humanidade. Perpassando a “produção artística com imagens a serviço da magia ” (BENJAMIN, 1936, pág. 173) deixando clara a veneração do homem pelas imagens, tendo como princípio a busca da salvação, de sua tranquilidade e indo até o culto das imagens tecnicamente preparadas sob a óptica de uma câmera, que temos desde o século XIX.

Diante do cinema, o culto das imagens se estabelece de maneira que o filme manipulando nossa percepção e reação, trazendo contínua excitação e um insight do objeto cultuado, nos faça venerar aquelas imagens como tranquilizantes. “Ele deixa passar nas telas incontáveis momentos e direciona a percepção para aqueles mais persistentes, os que ‘fazem sensação’, os quais se destacam tanto que provocam uma percepção que permanece.” (TÜRCKE, 2010, pág. 10).

Esse insight provocado em nós está completamente relacionado a maneira que o cinema nos seduz, se utilizando de um sentimento “pré-histórico” do homem, pela busca de um conforto nas imagens, o que faz com que automaticamente, seduzido e paralisado pelas mesmas, cultue-as sob um valor inestimável.



Epifania do sagrado no cinema

“De uma maneira ou de outra, trata-se do extremo dos sentimentos. Tanto o pavor paralisado quanto o seu negativo, o instante feliz paralisado, consumam o ato da epifania do sagrado; são sensação no significado extremo da palavra.” (TÜRCKE, 2010, pág. 192). Partindo dessa afirmação do filósofo e leitor de Benjamin, Christoph Türcke, após tudo o que foi abordado anteriormente, pensemos em como esse insight do objeto cultuado diante do sensório humano já paralisado, faça com que ocorra uma epifania.

Essa epifania se dá sob a forma de uma súbita sensação de total entendimento (no caso aqui relacionado às imagens cinematográficas), que acaba alimentando toda a aparelhagem daquela “retina artificial”, pois quanto mais veneramos e nos deixamos (involuntariamente) ser manipulados, nossa percepção cada vez mais será embotada de forma que sempre seremos enganados por essa falsa sensação de epifania. O sagrado se dá justamente pela busca incessante do homem pela salvação, a anteriormente dita “salvação por meio de imagens”, fazendo com que essa súbita sensação de entendimento do objeto cultuado (epifania do sagrado) ocorra em nós.



Considerações finais

Como último feito, gostaria de traçar uma linha com as ideias trazidas ao longo deste artigo, clareando ainda mais os dados expostos. As reproduções técnicas (fotografia e cinema) são passíveis de serem copiadas (reproduzidas em série), realizando assim, a necessidade humana de imitar. Essa incessante busca humana de atingir o sagrado de maneira a transcender seus limites, fica clara com o advento da fotografia e do cinema (especialmente deste último). Procurando ir além de si, o homem criou meios onde pudesse recriar a realidade sob a forma de uma “retina artificial”, buscando trazer as experiências sensoriais táteis que nós temos, O aceleramento das máquinas, a produção em série, tudo isso pela desenfreada caçada humana por algo que nos conforte, facilite, tranquilize, nem que para isso seja necessário repetir serialmente as imagens.

A fim de representar a ótica humana, essa “retina artificial” embota nossa percepção com sua contínua excitação, acabando por fim, paralisando nosso sensório.

Essa busca de trazer a experiência do “aqui-e-agora”, faz com que o cinema seja um grande propagador de sensações. Nós, imitadores por natureza e caçadores de uma “salvação por meio de imagens”, acabamos por cultuá-las, cada vez mais extasiados, paralisados e prostrados diante das mesmas. Essa “retina artificial”, após seduzir-nos com esse grande “choque imagético” enfraquecendo nossa percepção, faz com que, de maneira completamente manipulada, nós tenhamos a incrível sensação de entendimento (epifania do sagrado) do objeto cultuado.

Benjamin com seu olhar altamente visionário e profético conseguiu perceber ainda nos anos 30 como o cinema é grandioso e altamente sensorial. Em seu grande ensaio A obra de arte na era na sua reprodutibilidade técnica o qual foi tratado neste artigo, mostra em diversos momentos que a sétima arte é muito além de uma câmera e uma tela para reproduzir “meras imagens”. Essas imagens têm grandes poderes, e essa câmera tem funções muito mais danosas e que aparentam.



Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Image et memoire: écrits sur l’image, la danse et le cinéma. Paris: Desclée de Brouwer, pp. 65-76, 2004.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (1939). In: SCHÖTTKER, Detlev. HANSEN Mirian e BUCK-MORSS Susan. Benjamin e a obra de arte técnica, imagem, percepção. 1ª ed. trad. Marijane Lisboa e Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (1936) In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre a literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985. Obras Escolhidas, v. 1.

SCHÖTTKER: SCHÖTTKER, HANSEN Mirian e BUCK-MORSS Susan. Benjamin e a obra de arte técnica, imagem, percepção. 1ª ed. trad. Marijane Lisboa e Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015.

TÜRCKE, Christoph. Cultura do déficit de atenção. Serrote. São Paulo: Nº 19, pág 51-61. 2015.

TÜRCKE, Christoph. Sociedade excitada: Filosofia da Sensação. 1ª ed. trad. A. S. Zuin. São Paulo: UNICAMP, 2010.