Vontade de catarse, vontade de purgar-se


E considerou a cruel necessidade de amar: considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz. Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes que mataremos por amor.

Clarice Lispector em A menor mulher do mundo.

A estupefação diante da Presença estranha é antes de mais nada uma suspensão do ânimo, ou seja, um interromper a respiração, que é o fluir da vida.

Octavio Paz em O arco e a lira.


1.

Se somos seres solitários e castrados, numa busca que necessariamente pressupõe um desejo, também seremos os seres que encaram o horror na sua plena condição de ser horrível. Frente ao que é horrível, diante daquilo que temos medo, do que consideramos o Mal, a paralisia e o próprio movimento primeiro que a desmonta são condições inevitáveis de se tomar. A inevitabilidade do movimento é algo necessário do corpo que, desejoso por respirar, age como gatilho e talvez até como medida drástica, para se tomar decisões que, simplesmente, não tomaríamos em condições ordinárias. Pergunto-me se esse desejo propulsor também não é rastro do que há de mais horrível e violento na gente, e se não haveria a necessidade de uma cautela no ato de dar um passo a frente.

Isso talvez seja exemplificado na perda semântica de uma palavra como formidável que, no presente momento, adjetiva algo que dá certo brilho nos olhos; algo que formaliza uma imagem com uma capa de beleza ou de positividade. Entretanto, a palavra latina carregou até então o medo3. Um tipo de medo similar àquilo que é Bom e Bem demais, daquilo que transpassa o necessário, que atravessa a borda, o limite; e que às vezes não volta para contar o que havia do outro lado. Ou quando volta, é como um estrangeiro, um corpo estranho em nosso corpo. É o demais que nos amedronta. Temos medo daquilo, que em nós e em outros, excede – da intemperança que a épica nos interdita. Basta uma palavra que atravesse uma outra palavra, adjetivando-a, como faz um parasita semântico, que a segunda se potencializará e se tornará desagradável; ou, no mais das vezes, medonhamente agradável para os nossos pudores.

A perda de traço significativo do que é formidável metaforiza a nossa vontade de desmanchar o medo, de fazê-lo escapar de nossas entranhas e nunca mais senti-lo. Afinal, ele vem de dentro e o simples ato de nomear algo externo de medonho é demonstrar e recusar o que, na verdade, temos de mais horrível na nossa própria essência. Portanto, recusamos algo que naturalmente se recusa. A perda é convenientemente aceita e concordamos com todas as suas diabruras a fim de fingir que não possuímos mais nada de horrível em nós mesmos. Por isso nos confessamos, liberamos um peso que até o momento nos parece estrangeiro. O próprio ato da confissão – seja a confissão cristã, ou mesmo a que ocorre numa conversa entre amigos íntimos – produz o caloroso e benéfico gás hélio que nos alça. Vontade de catarse, de purgar- se. A leveza parece ser o estado natural do bom ser humano que se corrompe e depois dispersa tudo que é podre para se sentir novamente bom, belo e formidável.



2.

Em um conto chamado Preciosidade, Clarice Lispector nos apresenta uma menina de quinze anos, cuja preciosidade, a sua pureza de infância, é protegida por sua rigidez militar, de “ritmo espanhol”4. A menina, como todas as meninas – essas que saem na rua aceitando e sofrendo a violência sexual que vão enfrentar – tem medo. Tem medo de ser olhada, tem medo de alguém “lhe dizer alguma coisa”. Pois o olhar alheio é violento, a palavra é violenta. O próprio silêncio, angustiante, de “trincheira” é violento. A menina, contudo, não se resigna: sai na rua, vai para escola; enfrenta, “vigorosa”, o externo, como quem está em um combate diário. Combate cujo propósito é a preservação de sua pureza. A própria linguagem do conto, cheia de palavras de guerra e violência, nos remete a essa bipartição da realidade: onde a casa é segura e o lado de fora está repleto de perigos; tudo que está lá fora é potencialmente mal, como o vento que entra pela janela e violenta o rosto.

Chega um momento, nesse romance familiar, em que a menina sente o desejo do confronto, sente a “falta da batalha”. E num movimento como o de Orfeu – o do seu olhar impaciente – a menina almeja sair de casa, de sua safe zone. Pergunto-me se não seria, assim como é para Orfeu, um ato necessário? O movimento que é pressuposto desde o início? Suspiro que sucede a paralisia.

E a menina sai no dia seguinte, como faz todas as manhãs: vigorosa. Todavia, a violência, dessa vez, é excessiva; ela mata empiricamente e não mais apenas no mundo da ficção – como acontece quando nos entregamos à barbárie. Ela paralisa mais e só permite ao pensamento da menina a prece: “Fazei com que eles não digam nada, fazei com que eles só pensem, pensar eu deixo.” Pois a palavra é violenta, o toque é violento; ele é capaz de arrancar dela a sua preciosidade, a sua “joia”. Aí vem o suspiro, logo após a paralisia... Mas, agora, ele não vem imediatamente. Parece-me que Clarice conhece o perigo do movimento brusco em situações de urgência; e no momento do choque, ela diz: “ela [a menina] fez a coisa mais certa que poderia ter feito no mundo dos movimentos: ficou paralisada.”. Porque ela sabe – e nós o sabemos também – o que pode levar a reação imediata à violência.



3.

Digamos que é inevitável dissociar o bem do mal, digamos que concordamos – como algumas vezes o fazemos realmente – com o vazamento entre as bordas que separam um do outro; não acreditamos mais nesse combate de duas máximas, pois há uma ambivalência do sagrado, do que se diz puro. A preciosidade inevitavelmente será perdida. Qual é o próximo passo? A angústia do ato, a angústia do agir após a descoberta da impureza, nos amedronta e inviabiliza o movimento que naturalmente se aciona. Não há mais castelo que sirva de abrigo. Pois se o impuro é inevitável, largaremos a mão das escolhas comedidas e aceitaremos a igreja do Diabo com a certeza de que, no fim, ela voltará a ser a igreja de Deus? Tomar o partido contrário, entretanto, não me parece uma resposta satisfatória.

Estamos observando o que acontece quando a polícia, instituição de controle de alguns limites sociais, para de agir ao demandar os seus direitos, e uma parte da população se entrega a um desejo de revolta, de transgressão, e outra parte, à paralisia do medo, do recluso em suas safezones; enquanto em algum lugar escondido, realmente seguro, os nossos responsáveis não se pronunciam. Eles aguardam o medo se alastrar; para, enfim, propor as suas medidas, precisas, de urgência. Eles aguardam a reação à violência.

Peço o perdão por não oferecer uma resposta clara. Ainda estou à procura de uma que, sem a pretensão de destruir um impasse, permita uma travessia cautelosa e pela tangente. Acho que, hoje, todas as respostas andem ao lado dessa mesma cautela, dessa atenção. Assim como elas andarão também ao lado de uma tensão inevitável da palavra, de uma angústia do agir. Há muito tempo a polícia já parou de agir em determinados segmentos da sociedade, ou simplesmente age como bem entende, ou como ela se sente coagida a agir; e a população desses segmentos periféricos não deixa de viver, mas vive numa vida de cautela e medo. Eles não têm escolha.

Como já propôs Isabelle Stengers, repetindo mais uma vez o que já sabemos, deveríamos faire attention5 – tomar cuidado com aquilo que pode ser não mais que um pharmakon, aquilo que facilmente passa do remédio para o veneno. Devemos tomar cuidado com o gift, ora inglês ora alemão, que aceitamos de nossos responsáveis ou daqueles que os almejam ser, porque eles esperam, justamente, que a nossa reação de aceitar as suas propostas com segundas, terceiras, quartas etc. intenções seja feita abruptamente.

Essa cautela traz certamente uma instabilidade, uma travessia escorregadia. Mas não deixa de ser uma ação; um agir, diante do monstro que nos petrifica com o seu ato de fazer com que nos olhemos no espelho, para o nosso outro, mas nunca diretamente para eles. E isso não será a única resposta. Assim como não foi a solução para a personagem de Clarice, onde a violência aconteceu mesmo com a sua precaução. Isso não faz com que salvemos a nossa preciosidade – se é que ela ainda pode ser salva –, muitos menos fará com que se resolvam problemas que vão muito mais a fundo das relações sociais; problemas muitas vezes engatilhados pelo conflito entre classes e gêneros, misoginia, racismo. Clarice talvez tenha encontrado a resposta no conforto do mesmo conto: “Há uma obscura lei que se faz com que se proteja o ovo até que nasça o pinto, o pássaro de fogo.” Talvez tenhamos que, a partir de agora, nos proteger, à nossa maneira, desses que se dizem nossos responsáveis. Não aceitar, cautelosamente, a paralisia. Não temer, e fazer – com atos – com que, em uma democracia, quem encabece seja o povo; assim como o é na palavra. Pois a palavra é violenta; e o modo como ela será usada, isso dependerá da gente.



Citações bibliográficas

1 LISPECTOR, Clarice. A menor mulher do mundo. In: LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. Org. Benjamin Moser. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. p. 196

2 PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 136. 3DICIONÁRIO LATIM-PORTUGUÊS. Editoração eletrônica por Fábio F. S. Moniz. 2ª edição. Porto Editora, 2001. p. 293.

4 LISPECTOR, Clarice. Preciosidade. In: LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. Org. Benjamin Moser. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. p. 206-217.

5 STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. Trad. Eloisa A. Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2015.



Bibliografia:

DICIONÁRIO LATIM-PORTUGUÊS. Editoração eletrônica por Fábio F. S. Moniz. 2ª edição. Porto Editora, 2001.

PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

LISPECTOR, Clarice. A menor mulher do mundo. In: LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. Org. Benjamin Moser. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. p. 193-200. ______. Preciosidade. In: LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. Org. Benjamin Moser. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. p. 206-217.

STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. Trad. Eloisa A. Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2015.