Em Espera

Calada
Como a concha
Sobre a mesa
Do trabalho,

Não atendo
Se me tocas
Nas ausências.

Planejo,
Friamente,
O grande incêndio,
O desjejum.

Aperto,
Entre os dedos,
Nossa dízima,
Teus botões.

Um arsenal
De olhos discretos
Me atravessa
Pelas ruas.

A mulher
Espera o filho
Como a água
A ebulição;
O amor
Move as meninas
Como as asas
Um navio.

A cada dia,
Outro domingo.
Um deserto
De pessoas
Sob a sombra
Matinal.

Usufruo,
Como esteta,
A companhia
Do teu não.

Meu casaco
Brim carmim
No granito
De uma praça
Enquanto choro
E um velho passa
Conformado
No final.

O coração
De uma Poeta
É beira,
Nunca meio:

Bola de papel
Dourada;
Livro antigo
Sem esteio;

Uma bússola
Que ancora
No passeio;

O sangue doce,
O mapa aberto
Que exilou-se!;

Uma hélice
De estrelas;
Barra de sabão
Azul.

Se me mostro agora,
Oculta,
Entre direções
Sem Sul,
À revelia
De quem volta
E esbarra
Nas esperas,
É que me exultar
Não pude.

Sigo fraca, mas serena,
Estampada no que escondo
Com o ar de quem aguarda,
Paciente,
A inquietude.

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