Xana e o meu baseado

“Caralho, garota, você não me ajuda com porra nenhuma, acorda tarde e ainda sai atrasada pra escola, sua filha duma puta.” Minha mãe gritava, e não era nem meio dia e meia, eu já tava na oitava série, assistia aula quando queria, e quando tava atrasada como hoje pegava o beco do lambelasca, mas antes eu tenho que passar por uma vila, puta merda, odeio essa vila, a galera vive ali não sei como as criança não estuda é tudo suja, e tipo, aqui na favela tem uma escola em cada esquina, galera do movimento do morro do lado chama isso aqui de “terra prometida”, lá tem uma escola ou outra, aqui tem papo de 6/7, como essas cria fica largada assim?

Eu fumo o meu, ta ligado?, mais ninguém sabe, muito menos minha prima, ela é perfeita, minha mãe diz que eu tenho que ser igual ela, minha prima tem beleza e eu tenho espinha e um baseado. Felipe, eu compro o meu com o Felipe, Felipe mora na frente fria e trabalha por ali também, os cara grande não me dão confiança, eles só quer as novinha tipo minha prima, e mina tipo minha prima já ta no ensino médio pegando os cara da faculdade. Eu não, eu tenho espinha e um baseado.

Felipe tem 25 anos, e a mãe dele tem 43, engravidou cedinho, Felipe é pouca merda no movimento, mais é o suficiente pra decepcionar a Xana, Felipe é só aviãozinho, nem fuma que nem eu, mas a Xana chora, sei disso pq sempre encontro ela na vila evangelizando aquela galera, ela é obreira da universal, vive me falando de Jesus e os caralho, até apago meu bagulho, preciso ter respeito, ela diz “vc não tem amigas, não sente falta disso?” “sabe como é as garota, né tia? Felipe é meu amigo, e a perna dele melhorou?” “Ta usando moleta, mas não sai do ponto. Vamos no grupo jovem domingo, você vai fazer novas amizades, e Jesus vai saciar todos os seus desejos e você vai ver que não...” Xana era boa, mais não salva nem o filho que é traficante classe 1 imagina eu que só tenho espinha e um baseado? “Xana, to corridona, depois a gente vê ai esse papo de grupo jovem”.

Primeiro tempo é de espanhol, não consigo entender o que a profe escreve no quadro, mas reparo na marca da calça, mercato, nunca ouvi falar, mas achei bonito, pra alguém que tem dois filhos ela ta inteiraça, Xana acha que não tenho amiga, e ela ta certa, tá geral nos seus bonde, suas patota e eu to aqui longe porque a professora mandou eu parar de fogo no rabo com os moleque da sala. Eu me pergunto tanto o que eu to fazendo aqui, podia ta trabalhando, se meu pai pagasse o maximus eu seria muito mais inteligente, a mensalidade lá é de boa e aqui tem o Élio, caralho, eu odeio essa aula e nunca aprendo nada. Na aula dele eu sento do lado da Lala, a gente estuda junta desde o jardim, Lala é inteligente pra caralho, mas toda vez que ela pede ajuda do Élio ele sempre me toca de um jeito novo, uma vez fez cosquinha na minha cintura, outra vez apoiou as mãos na minha coxa, eu não sei se isso é certo, hoje ele ta com as mãos nos meus ombros como quem faz massagem, a Lala me diz que é porque na quinta série me pegaram com o maluco da oitava perto do quartinho da bagunça, a gente se amassou maneiro, mas a escola inteira acabou vendo, inclusive o Élio, não posso reclamar né.

Hora da saída, meu rolo ta dentro do top, acho que da pra ir na quadra fumar um enquanto isso, MALUCO do nada começar a dar tiro, é muito tiro, parece que é aqui na quadra, a gente sai na rua, sabe como é favela... o caveirão ta aqui, a galera sobe a rua em grupo, de repente eu vejo a Xana mexendo os lábios no beco da Raul e gritando, “meu filho ta morto, JESUS”.


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