A foto de biquíni de Sylvia Plath: é hora de parar de sexualizar uma autora séria para vender livros

Traduzido por Giulia Benincasa*

A capa da edição inglesa da coleção de cartas é apenas a mais recente a mostrar a aclamada poeta como uma loira radiante em um biquíni ousado. Mas apresentar escritoras como meros símbolos sexuais inferioriza suas conquistas literárias.

Na capa da edição americana das cartas de Sylvia Plath, um volume que saiu essa semana e contém cartas inéditas da autora entre seus oito e vinte e quatro anos, está uma foto tirada em 1955. Ela está andando por algum lugar em Cambridge, empacotada em um casaco e sorrindo, pensativa. Já a edição inglesa foi para uma representação de Plath bem diferente: uma foto colorida, ela na praia de biquíni, loira e radiante - uma antítese visual da ambiciosa e intelectual poeta.

Essa não é a primeira vez que a imagem de Plath foi usada para fazê-la parecer trivial ou superficial. Em 2013, Faber, a editora responsável pela capa inglesa com as fotos de biquíni, lançou uma edição de aniversário ridícula de The Bell Jar, cuja capa mostrava uma mulher checando a maquiagem. Seja qual for o simbolismo por detrás da foto, é inegável que ela estava carregada de um design comum das capas de “chick lit”; a história de uma tentativa de suicídio seguida de uma hospitalização é algo diminuído pelo foco no batom e o esmalte combinando. Em Johnny Panic and the Bible of Dreams, uma coleção de sua prosa, também foi usada uma das fotos de biquíni, assim como a Telegraph recentemente as usou para ilustrar uma história sobre suas cartas de amor. No volume dedicado à Plath, na coleção da Faber Poet to Poet, onde um poeta seleciona trabalhos de outro que admire, Ted Hughes, seu distante marido, escolhe uma foto de Plath seminua; e a biografia Mad Girl’s Love Song, escrita por Andrew Wilson, mostra na capa uma Sylvia loira, de perfil e com o colo à mostra, a foto foi cortada para sugerir ser uma ninfa nua.

Estas são as imagens que as editoras acreditam que melhor representam Sylvia Plath, uma poeta e novelista mundialmente reconhecida, um ícone, uma vítima de abuso doméstico, uma mãe solteira, uma pessoa com doenças mentais e que se suicidou. Por que seu trabalho, tão cheio de simbolismos e mitos, que documenta as frustrantes consequências de uma feminilidade transgressora, é comercializado com tão pouca consciência e respeito?

Ao responder essa pergunta, é difícil evitar ser cínica com os britânicos, cuja escola literária passa a mão na cabeça de Hughes. Logo após sua morte, aqueles que eram do time Ted esforçaram-se para construir a imagem de Plath como uma mulher louca e mimada. Bitter Fame, a única biografia autorizada de Plath - que possuía tanta interferência da irmã de Hughes, Olwyn, que a autora Anne Stevenson se referiu à ela como “um trabalho de autoria dupla” - inclui dois apêndices expondo muito a autora, para diminuir ou negar qualquer tipo de elogio que sobrara.

Isso não é apenas uma suspeita histérica. Em seu livro Sylvia Plath and the Mythology of Woman readers, Janet Badia escreve sobre “ tropas que procuravam depreciar a imagem de Plath entre seus fãs, sobretudo as meninas jovens, as colocando como consumidoras sem senso crítico”. Isto, ela afirma, “tem ditado a forma que Plath é recebida pelas escolas literárias e os veículos de massa”. A curadoria de sua imagem desempenha um papel. Talvez a lógica seja que as fotos de uma Sylvia sorridente contrabalanceiam a escuridão em seu trabalho, conduzindo tragédia extra à sua doença e morte, mas esse tipo de correlação não é feita em autores homens. Considere um colega seu confessionalista: Robert Lowell tinha transtorno maníaco-depressivo e foi hospitalizado no McLean, em Massachusetts, onde Plath também se tratou em 1953 e que a inspirou a escrever o imortal Bell Jar. Em todas as capas de livro, vemos Lowell posando com ar estudioso, escrevendo, lendo e incrivelmente capaz de manter-se vestido. Enquanto isso, Anne Sexton, contemporânea de Lowell e Plath que também se suicidou, tem uma foto vestindo roupas de banho usada como capa de sua seleção de poemas.

Apresentar escritoras mulheres como frívolas e/ou sexualizadas diminui seus créditos, taxa seus trabalhos como ‘leves’, sem necessidade de serem levados à sério. Os poemas de Plath eram viscerais e nada graciosos; seu livro era sobre loucura. A imagem que melhor representa uma escritora dessa força e talento não é, como ela mesma escreveu em seu poema The Applicant, a de uma “boneca viva” em biografias, coleções e impressa em jornais “onde quer que você olhe”, para sempre marcada em nossas mentes como uma loira bronzeada de 22 anos em seu biquíni.

Plath só foi loira durante três meses. Ela documentou a fase em seu conto “Platinum Summer”, outro roman à clef no qual sua protagonista diz ser “uma mulher pela mudança... não uma estante de biblioteca ambulante”. Mas ela descobre que o “tipo loiro-platinado global” é desarmônico com seu verdadeiro eu e acaba voltando para sua cor natural, castanho. Em uma carta para sua mãe, datada do dia 27 de setembro de 1954, Plath admite que “meu eu moreno é mais estudioso, encantador e sincero”. Ela estava satisfeita em voltar para sua cor natural, preferindo parecer “modesta e discreta”.

Sabemos que a “Sylvia morena” era como Plath gostaria de se apresentar. Então, já que a nova Coleção de Cartas ostenta ser “integral, sem revisão” e apresenta a autora “com suas próprias palavras”, o que deveria estar sendo vendido, na verdade, é uma autora que gostava de seu eu modesto e estudioso, uma foto de biquíni enfraquece qualquer reivindicação de autenticidade.


*Giulia é graduanda em Letras Português-Literaturas e fica desconfortável em falar de si mesma na terceira pessoa.


Texto original: CONWAY, Cathleen Allyn. Sylvia Plath’s bikini shot: it’s time to stop sexualising a serious author to sell books. The Guardian, 28 set. 2017. Disponível em: https://www.theguardian.com/books/booksblog/2017/sep/28/sylvia-plath-bikini-shot-its-time-to-stop-sexualising-a-serious-author-to-sell-books. Acesso em: 04 nov. 2018.


Topo