Sylvia Plath Ficava Bem de Biquíni – Lide com Isso

Traduzido por Giulia Benincasa*

Tumulto causado pela imagem da poeta na praia mostra que não estamos prontos para deixar mulheres escritoras serem pessoas

Existe uma história, frequentemente repetida na maioria das biografias sobre Sylvia Plath, acerca do seu retorno à faculdade após sua tentativa de suicídio seguida de hospitalização. Era o início do semestre na primavera de 1954 e Plath estava conhecendo, pela primeira vez, a jovem que havia ocupado seu dormitório durante a sua doença - Nancy Hunter, mais tarde Nancy Hunter Steiner, quem viria a se tornar sua amiga mais próxima e escreveria uma breve coleção de memórias sobre a amizade das duas, A Closer Look At Ariel.

Hunter tinha passado esse tempo no dormitório de Sylvia sentindo-se assombrada pela sua antiga ocupante. Plath tinha alcançado um status legendário na faculdade, graças ao seu brilhantismo como aluna e à sua tentativa de suicídio. De acordo com Steiner, ''...conforme os meses passavam, eu me familiarizava com os detalhes da lenda de Plath através das especulações fervorosas que surgiam com qualquer menção de seu nome.'' Na sua ausência, Hunter formou uma imagem sobre ela como ''garota gênia... simples, entediante ou que não seguia a moda, que rejeitava qualquer frivolidade na busca da excelência acadêmica e literária''. Mas, conhecendo a misteriosa figura pela primeira vez, no almoço no campus da faculdade, Hunter foi pega de surpresa com a aparência de Plath e deixou escapar ''Nunca disseram que você era linda!''

Essa breve imagem dos anos de faculdade de Plath já contém a fusão dos mitos, rumores, falta de informação e reviravoltas que marcaram seus legados literários e pessoais desde a publicação de Ariel em 1965. Está tudo lá, desde a súbita e misteriosa desaparição (''especulações fervorosas com qualquer menção de seu nome''), as projeções sem restrições sobre a mulher desaparecida (''simples, entediante ou que não seguia a moda”) até as reações de espanto com o conhecimento da real Plath (Surpresa! Ela é linda!). Plath está sempre sub ou superestimando seus leitores – Janet Malcolm escreveu em The Silent Woman que Plath a ''desaponta'' nas fotografias. Ela está esperando por uma bruxa ruiva que ''devora homens como se fossem ar'', e tudo que ela ganha é essa péssima dona de casa, segurando seus bebês, cabelo trançado. Jessica Ferri, escrevendo sobre tocar aquelas mesmas tranças quando trabalhou com coleções especiais na Lilly Library, em Indiana, mostra-se espantada: "Havia tanto cabelo!"

Na minha própria vida fui perguntada mais de uma vez ''Quem é aquela ali, na capa?'' enquanto segurava minha cópia marcada de Unabridged Journals de Plath - que exibia seu nome muito claramente. Quando eu replicava "Esta é Sylvia Plath", a resposta era quase sempre a mesma - não pode ser. Eles estão esperando por uma bruxa, uma garota gótica, um mito. A imagem de Plath, sorrindo em sua beca de formatura, causa uma certa dificuldade de compreensão e, finalmente, desapontamento. Essa é a mesma dificuldade que nós, como uma cultura, sofremos coletivamente por Sylvia Plath e, de fato, por qualquer mulher enaltecida por seu intelecto que também tenha a ousadia de habitar um corpo: É ela? Ela não é um pouco bonita demais? Ela não é bonita o suficiente?

Essa reação à imagem de Plath é um padrão que se repete toda vez que há um novo “evento” de publicação. Na última edição inglesa de seu livro Collected Letters, a capa mostra uma Sylvia Plath com seus vinte-e-poucos anos sorrindo para a câmera usando um biquíni branco. Eu fiquei ciente da capa, e também do ultraje que a mesma trazia, em um post de uma conhecida poeta norte-americana em seu Facebook, no qual ela e, nos comentários, outros poetas conhecidos, expressavam-se profundamente raivosos e exaustivamente frustrados diante do inerente sexismo que a escolha aparentemente simbolizava. Semana passada, li o texto de Cathleen Allyn Conway que tratava exatamente dessa questão, no qual ela critica não só a capa do livro de cartas mas também as de outra meia-dúzia.

Enquanto escrevo isto, todos esses livros, às vezes em edições múltiplas, me encaram entre os suportes na minha escrivaninha, me relembrando que as políticas que envolvem Plath sempre acabam sendo políticas de redução e essencialismo. Conway percebe que a mesma foto de biquíni apareceu na capa de uma recente edição de Johnny Panic and the Bible of Dreams, uma coleção da prosa de Plath; ela julga que essa capa, bem como a capa de The Bell Jar, que fora mundialmente criticada, sugerem uma “chic lit”. Presumivelmente, ela preferiria capas como aquela de uma versão mais antiga de Johnny Panic, cujas cores psicodélicas sublinham a ideia de “doença mental”, reforçando a concepção popular da Plath feiticeira. Entretanto, enquanto Conway escreve “a lógica é que as imagens de uma Plath sorridente contrabalanceiam a escuridão em seu trabalho, conduzindo tragédia extra à sua doença e morte,”, ela dispensa essa noção porque “esse tipo de correlação não é feita em autores homens”. Essa afirmação falha em explicar outras razões para incluir fotografias de Plath que não sejam mórbidas: elas pintam uma imagem maior e mais próxima da mulher que viveu, para além de destacar sua morte trágica.

Em suas introduções para a resumida edição de diários, a coletânea de poemas e Johnny Panic, Ted Hughes, o distante marido de Plath, afirma que ela possuía um “verdadeiro eu” que apenas ele conhecia; sua poesia e prosa foram uma tentativa de mostrar esse “verdadeiro eu” em palavras. Ariel, disse ele, “é exatamente como ela é, só que permanente”. Uma afirmação fortíssima que criaria e apoiaria duas facetas absurdas do mito Sylvia Plath: que os eu-líricos nos poemas de Ariel eram a verdadeira Plath e que o livro por si só era uma coisa fechada - um mausoléu onde você poderia entrar à vontade, encontrar a mulher morta a cada volta, ensaiar uma versão sombria de Plath a depender do pensamento cultural em vigor. Conway, legitimamente, critica Hughes e sua irmã, Olwyn, em seu texto, mostrando que eles tentaram, logo após o seu suicídio, construir a imagem de uma Plath histérica e lunática. Não há dúvida sobre isso. Infelizmente, Conway é apanhada pela armadilha que Hughes construiu em suas publicações sobre Plath, em suas colocações acerca da forma de apresentar a escritora e seu “verdadeiro eu”. Para ela, Plath tinha uma figura que estava profundamente conectada a seu interior, e essa não era uma mulher loira de biquíni branco. Ela cita uma carta escrita em 1954 de Plath para sua mãe, Aurelia, que diz: “meu eu moreno é mais estudioso, encantador e sincero,” então ela sintetiza essa noção com a afirmação “Sabemos que a Sylvia morena era como Plath gostaria de se apresentar.”

E aqui se encontra o verdadeiro problema: Nós não sabemos o quanto disso tudo é a verdade. Uma linha em uma carta para uma mãe (que, inclusive, em outros textos diz ter ficado chocada e angustiada quando Plath pintou os cabelos de loiro) preocupada nos Estados Unidos não é capaz de provar nada. Além disso, essa idéia perigosa trazida por Hughes de afirmar que Plath (ou qualquer um de nós) possui apenas um único e definitivo “eu” é algo que visualizamos apenas em escritoras. Nós adoramos os cantos de Whitman, onde ele se celebra através de várias noções, tais como “Eu sou vasto, em mim há multidões”. Não temos problemas em conciliar o fato dele ser, ao mesmo tempo, queer e um hétero fanfarrão que teve seis filhos ilegítimos, entretanto temos dificuldades de encarar as fotos de Sylvia Plath usando biquíni - como se ela não pudesse ser a gênia que era e, ao mesmo tempo, uma mulher que estava contente com seu corpo, sentindo-se sexy, feliz por sorrir para a câmera.

Conway nota que Robert Lowell, contemporâneo de Plath, é sempre imaginado sentado concentrado em uma biblioteca, com uma parede de livros ao fundo, como se essa fosse a única forma que podemos conceber um autor ou levá-lo à sério. Mas entender Plath é também entendê-la como uma mulher de seu tempo, ou seja, alguém a quem só era oferecida uma única narrativa: casamento e família. Para tanto, mulheres precisavam ser experts, senão escravas, de um mundo extremamente material, como escreveu primorosamente Elizabeth Winder em Pain, Parties, Work. Negar o interesse de Plath pela beleza é negar as condições de sua vida.

É também negar a parte de sua personalidade que não era sombria, mórbida ou ditada pela sua doença ou casamento. Ela amava o esmalte e batom vermelhos da Revlon e sempre procurava trazer um pouco de vermelho para suas roupas - sapatilhas vermelhas, lenços vermelhos, a famosa faixa que Hughes tirou de seus cabelos na primeira noite que se conheceram e levou para casa como souvenir. Esses eram os resultados do mundo que ela ocupava, mas eram também uma extensão das suas paixões pela estética, moda e artes - a atual exposição sobre Plath no Smithsonian contém os vários quadros que ela pintou na faculdade. Esther Greenwood, a protagonista de Bell Jar, vai para o telhado de seu hotel no centro de Manhattan e joga as lindas roupas que ela trouxe para usar durante seu trabalho de verão como editora em uma revista de moda. Peça por peça, sobre a cidade adormecida. Ela não faz isso porque quer se tornar algum tipo de ascética ou porque agora ela compreende seu verdadeiro eu, mas sim porque vive em um mundo em que não há espaço para ser ou uma coisa ou outra, ser espaço para ser mais. Ao invés de escolher a si mesma, ela começa um aterrorizante processo de desistir de tudo, o que acaba em uma tentativa de suicídio.

Eu gosto de pensar que hoje há espaço para mulheres serem múltiplas, mas as reações às imagens de Plath de biquíni - que, a propósito, é um retrato de férias tirado por um namorado, não uma sessão de fotos calculada e manipulada - mostram o oposto. Essa imagem de Plath não é, como diz Conway, “uma antítese visual da poeta ambiciosa e intelectual. Foram tiradas, na verdade, no verão em que ela namorou Gordon Lameyer e Richard Sassoon, que a amaram tanto pela sua aparência quanto pela sua inteligência extraordinária e quem ela amava pelos mesmos motivos, em retorno. A discussão entre corpo e mente foi iniciada para Plath quando esta ainda era uma jovem mulher. Em nenhum momento, ela viu essas coisas como excludentes; ela comumente descrevia seu amor por Hughes como tendo a força que tinha porque ele desejava o corpo, a intelectualidade e a arte que ela possuía em conjunto em si.

Na verdade, para mim, é espantoso ter que escrever essa frase: nós podemos levar uma escritora de biquíni à sério. Eu tenho três no meu armário; o que comprei mais recentemente é um estilo vintage vermelho. Eu o comprei porque amo vermelho. Eu amo vermelho, em parte, porque amo Sylvia Plath. Eu uso o batom vermelho da Revlon nas aulas que dou, em festas, em encontros intimidadores com homens bons. E quando o uso, eu a invoco, só um pouquinho - para inspiração. Para dar sorte. Para me lembrar da permissão que ela me deu e me dá para ser forte. Para tentar e surpreender quem quer que seja. Para dizer as coisas que ninguém quer dizer ou ouvir. Para ser bonita e inteligente e sexy e para nunca, nunquinha, cair na cilada de acreditar que essas características não podem coexistir.


*Giulia é graduanda em Letras Português-Literaturas e fica desconfortável em falar de si mesma na terceira pessoa.


Texto original: DUYNE, Emily Van. Sylvia Plath Looked Good in a Bikini - Deal With It: Electric Lit, 9 out. 2017. Disponível em: https://electricliterature.com/sylvia-plath-looked-good-in-a-bikini-deal-with-it-5c240074bcd3. Acesso em: 04 nov. 2018.


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