Entrevista com Anélia Pietrani

Por Amanda Dib*

Primeiramente, a Revista Odara gostaria de agradecer a disponibilidade para a entrevista, mesmo fora do país e participando de Congressos. Como estudantes de graduação da Faculdade de Letras, acompanhamos de perto os cursos, eventos e núcleos advindos de suas pesquisas. Sendo o tema desta edição a produção de autoria feminina, sua participação é fundamental.

Anélia, atualmente você está nos EUA concluindo o pós-doutorado em Sylvia Plath e, desde 1998, demonstra interesse em estudos de gênero. Gostaríamos de saber como foi sua trajetória como pesquisadora: o que te atraiu a essas pesquisas e que obstáculos enfrentou?

Na UFF, tive a grande oportunidade de ser orientada pela professora Lucia Helena, que me apresentou à leitura da obra de críticas literárias feministas como Teresa de Lauretis e Rita Felski, assim como também à leitura da filósofa e cientista política Hannah Arendt. Arendt, embora não se referisse tão diretamente às questões de gênero em sua obra, me abria os olhos para pensar sobre direitos humanos, sobre moralidades, sobre autoritarismos e totalitarismos, e, por esse caminho, podia dialogar com a crítica feminista. Estávamos nos anos 90, década áurea dos estudos culturais, e eu só pensava que tinha que defender o lugar da literatura, sua especificidade e seu papel na construção de uma sociedade de pensamento mais crítico e humanista, numa sinonímia perfeita, como parece dizer Hannah Arendt. Também pensava que eu precisava ficar atenta ao material poético de cada fiozinho tecido na escrita, de modo que estudos culturais e literários não se posicionassem em campos opostos, mas estivessem em permanente diálogo. Eu amava cada palavra, o som de cada uma, a cor de cada uma, o movimento de cada uma, o silêncio de cada uma, e achava que, de alguma forma, a literatura – mostrando seu mal e seu bem, mostrando o mal e o bem da humanidade – nos salvaria. Estudar a problemática em torno das questões de gênero, da figura da mulher e das mulheres, da sua construção na história e na literatura foi a saída que encontrei para ser “eu” menina da roça, mulher, leitora e professora. Não sei se me salvei, se salvo alguém, mas me dou um desconto e penso que a danação também tem lá sua forma de salvação.

Agora, como é o papel de ser orientadora de pesquisas envolvendo questões de gênero? Pode nos falar um pouco sobre o Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM)?

Quando cheguei à UFRJ em 2009 como professora, tomei conhecimento do NIELM, núcleo criado em 1993 pela saudosa Angélica Soares e pelas queridas professoras Elódia Xavier, Helena Parente Cunha, Lucia Helena, Luiza Lobo e Rosa Gens. Convidada por Rosa a integrar o grupo, logo me engajei nas atividades. Promovíamos palestras com autoras, cursos de extensão, grupos de leitura, de que também participavam nossos orientandos. Nossos cursos oferecidos na graduação e pós-graduação voltavam-se para as temáticas de gênero e priorizavam a literatura de autoria feminina. Fortalecemos o convênio com a Universidade de Paris 8, onde eu e Elódia estivemos em 2013 oferecendo curso sobre literatura brasileira de autoria feminina. Integramos o GT da Anpoll “A mulher na literatura” e mantemos intercâmbio com várias universidades brasileiras, através de participação em congressos e em bancas. Desde então, alunas e alunos passaram a me procurar com interesse nas pesquisas sobre autoria feminina. Agora que estou distante fisicamente, sinto falta de nossos encontros para leitura e para as descobertas em conjunto. O trabalho de pesquisa é tão solitário. Integrar um grupo de pesquisa e de afeto é uma forma de estarmos juntas – às vezes, só o papel de “não soltar a mão de ninguém” basta, mesmo a gente sendo um grupo pequeno. Eu quero receber afeto e quero dar a mão.

Neste ano, você foi uma das organizadoras do Escritas do Corpo Feminino, evento internacional que trouxe grandes nomes da literatura como Conceição Evaristo, Dina Salústio e Lídia Jorge à UFRJ. Como você vê o interesse intelectual em torno do corpo feminino? E como foi a organização de um evento com este tema?

O evento foi idealizado pelo grupo de pesquisa de Teresa Salgado, que convidou a mim e a Cinda Gonda para comporem a comissão de organização. Foi simplesmente fantástico. O congresso assumiu uma amplitude incrível e foi revelador da necessidade urgente – sim, a necessidade de falar sobre as mulheres, sobre o corpo da mulher, em vários campos de estudo: literatura, filosofia, sociologia, música, história, cinema, religião, nutrição, educação física, para citar apenas alguns de que me lembro agora. Além das mesas-redondas, mais de 150 comunicações foram apresentadas nesses diferentes campos de estudo sobre o tema do evento em interface com a literatura de língua portuguesa. Precisamos falar, precisamos ouvir, precisamos ser ouvidas.

Em seus cursos de poesia brasileira na UFRJ, você valoriza e prioriza uma ementa majoritariamente feminina. Para você, qual a importância da mudança em ementas masculinas? Como conseguir dar visibilidade não só a escritoras, mas a pesquisadoras e intelectuais e modificar os protagonismos na academia?

A única forma de lhes dar visibilidade é lendo-as, estudando-as e escrevendo sobre elas. Podemos ficar discutindo horas e horas as razões que as levaram a ficar fora do cânone. Não adianta. O jeito é conhecer sua obra e levá-las ao conhecimento do público, mostrando-lhes sua força literária. Precisamos publicar ensaios e artigos, defender dissertações e teses, apresentar comunicações, trabalhar com as escritoras. No fim da apresentação, podemos nos dirigir à plateia e dizer apenas com o olhar ou dizer, se assim desejarmos, com todas estas palavras: “Meu caro ouvinte, que tempo você perdeu sem ter lido Lésbia, de Maria Benedita Borman, publicado em 1890!” Claro que, principalmente em meus cursos de graduação, não vou deixar de ler com meus alunos os meus eternos ocultos amantes Castro Alves, Euclides da Cunha e Manuel Bandeira. Claro também que tem um monte de homem bacana que eu leio e ainda quero ler. Mas hoje procuro priorizar o que as pesquisadoras e intelectuais mulheres escreveram: Hannah Arendt, Martha Nussbaum e Angela Davis são obrigatórias em minha ementa. Além delas, gosto também de ler os textos não ficcionais das poetas. É um pouco o que tenho feito aqui, neste momento, em minha pesquisa de pós-doutoramento, ao me debruçar sobre os textos críticos de Sylvia Plath, Audre Lorde, Adrienne Rich. Gosto de acompanhar o pensamento poético de cada uma delas e pensar como essa consciência poética se manifesta também em sua poesia. Os textos de Ana Cristina Cesar e Conceição Evaristo também são emblemáticos nesse sentido. O pensamento da própria mulher sobre a mulher precisa ser respeitado por quem deseja falar sobre as mulheres na história e na literatura. Os homens têm que saber ouvir.

A autoria da mulher muitas vezes é atravessada por leituras e classificações muito pautadas em estereótipos de gênero. Como desvincular os estudos da produção literária escrita por mulheres de uma tradição masculina?

Vejamos o caso Cecília Meireles, por exemplo. Sua recepção crítica é quase unânime em afirmar que sua poesia é delicada, sublime, cheia de flor, rosa principalmente. Conclui-se que sua poesia é bem feminina, certo? Sei lá. Drummond escreveu um livro cheio de flor (rosa, orquídea), mas alguém pensou em dizer que A rosa do povo é um livro feminino? Desconheço. E, afinal de contas, o que significa “feminino”? Cecília Meireles é sim delicada, não sei se mais ou menos feminina, por isso. Mas ela consegue ser brutal e violenta em sua “forma de delicadeza”. A “Balada das dez bailarinas do cassino” é o melhor exemplo disso. Na imagem final do poema, ela faz um jogo de espelhos entre a imagem das crianças na ciranda vistas pelas mães e a imagem das dançarinas no cassino com mães que só existem no espelho imaginário do leitor. A imagem é delicadíssima, inclusive a sonoridade dos dois versos finais, mas a voz poética fala em perda, solidão, usurpação da infância, prostituição. E aí, penso eu, Cecília é feminina e feminista, na forma muito própria que ela criou para seu feminino e feminismo. O crítico literário (e preciso me referir especialmente ao crítico homem, já que também existe um cânone crítico masculino) precisa sair desse lugar que “diz” que a mulher “deve” escrever assim e passar para o lugar que “olha” a mulher que “pode” escrever assim ou assado. As críticas mulheres e feministas têm sido mais atentas com relação a isso. Espero que os homens também passem a ser. Eu mesma, como uma mulher branca, tenho dificuldade de ler e tenho um certo medo (confesso) de escrever sobre o que escrevem as mulheres negras. Tenho procurado ficar mais atenta e sensível a elas. Elas sabem muito mais do que eu. Ao ler um texto, é preciso ouvir. Eu espero que os críticos homens também se disponham a ouvir mais.

Pensando em nomes como Angélica Freitas - que deu título a esta edição da Revista Odara -, como a escrita contemporânea tenta romper com esses estereótipos e ser uma forma de transformação?

É difícil fechar essa questão com apenas uma resposta. Cada escritora encontra sua forma (forma artística, insisto) de romper com esses estereótipos. O humor e a ironia de Angélica Freitas são perfeitos exemplos. Se uma certa figura de mulher foi pautada pela limpeza, pela ordem e pelos bons costumes, cá surge a poesia de Angélica cheia de bom humor se contrapondo ao bom tom e erguendo o punho fechado em um murro. O importante é que, se cada uma encontra a sua forma de transformação, todas encontram sua fala de resistência.

Em contexto atual de urgência para valorizar a voz e o empoderamento feminino, qual é o papel da literatura escrita por mulheres e da pesquisa em volta dela?

Corro o risco de ser repetitiva, mas vou dizer de novo: o papel da literatura escrita pelas mulheres e da pesquisa sobre elas é resistência. Lemos as mulheres para existirmos juntas (poetas, ficcionistas, críticas, ensaístas) e resistirmos. Eu quero existir e resistir com elas.

Em seu artigo "Fazer e dizer a literatura e a mulher" você diz que estudar "(...) as tramas do feminino na análise do texto literário de autoria feminina" é um ato político. Quais serão os próximos passos - ou atos políticos - dentro do seu núcleo de pesquisa e organização junto ao Departamento de Vernáculas da UFRJ? Pensam em outro evento como foi o Escritas do Corpo Feminino?

Estou ansiosa para retomar meus cursos na graduação e na pós-graduação e os encontros com meu grupo de pesquisa. Continuo falando virtualmente com meus orientandos, mas preciso estar com eles fisicamente. Dar aula é uma cachaça. Quero mostrar a eles o material que estou coletando. Quero saber o que eles acham. Quero ouvi-los. Quero escrever também a partir da fala de meus alunos. Tenho conversado também com outros colegas de outros departamentos da FL e quero levá-los para minhas aulas de literatura brasileira: que outras mulheres, que outras línguas, que outras linguagens falam a voz do gênero em suas literaturas? Precisamos conhecer mais a nossa própria faculdade e fixar parcerias e diálogos. Penso em retomar projetos com outras faculdades da UFRJ, principalmente com a Faculdade de Educação, onde já desenvolvi projetos com a Professora Anabelle Loivos, mas desta vez estamos organizando juntas um projeto sobre estudos de gênero e educação. Penso também em retomar o projeto que desenvolvi com o professor Jorge Marques no Colégio Pedro II em 2017: “A literatura brasileira contemporânea de autoria feminina e o seu leitor de Ensino Médio” (PIBIC-EM). Se o momento do Brasil é triste e querem nos amordaçar, é urgente juntar todas as forças em nossos atos políticos. Formamos pesquisadores e professores, é bom lembrar. Quantos eventos podem surgir dessas parcerias? Espero que muitos. E, claro, vamos fazer o segundo Escritas do Corpo Feminino. Registrem isso aí na Revista Odara e podem falar com a Teresa Salgado que já, já estou voltando animadíssima!


*Amanda Dib é graduanda em Letras Português-Literaturas pela UFRJ.


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