Entrevista com Estela Rosa

Por Amanda Dib*

Estela, gostaríamos que você falasse um pouco sobre a Mulheres que Escrevem: o que é e como surgiu?

Mulheres que Escrevem surgiu com a Taís Bravo e a Natasha Ísis, que fazem parte da equipe junto comigo e a Seane Melo. Surgiu em um questionamento da própria Taís de como estavam se dando essas conexões entre as mulheres que escreviam. Ela percebia que sempre tinha uma questão latente das mulheres que produziam e como elas faziam para criar esses diálogos. Daí surgiu a newsletter e a Taís resolveu fazer um ciclo de encontros fechados. Foi a primeira vez que tive contato com ela de fato. Entrei para a equipe, começamos os encontros e a ter um círculo de publicação constante no Medium. As coisas foram crescendo. Quando a Seane entrou, começamos a fazer podcast, que tem super bombado, o pessoal está curtindo muito, que é um podcast próprio das Mulheres que Escrevem: lemos textos das nossas publicações ou que vem de fora; debatemos livro etc. Tem funcionado legal. Bom, basicamente a Mulheres que Escrevem veio para trazer mais visibilidade à literatura escrita por mulheres, principalmente às contemporâneas. Muitas vezes publicamos mulheres que não têm livros publicados e que começaram a escrever há pouco tempo. É muito importante ter esse espaço de diálogo entre a produção das mulheres. Nos posicionamos abertamente sobre como achamos importante não só trazer à tona escritoras que foram esquecidas e apagadas, mas também abrir espaço para as mulheres que estão dispostas a escrever.

Você e a poeta Ana Carolina de Assis deram um curso chamado "Toda mulher que escreve é uma sobrevivente". Pode falar um pouco sobre esse título?

Esse título veio de uma frase tirada de um ensaio de Adrienne Rich. O ensaio aborda a trajetória de Anne Sexton e sua morte. Eu e a Ana, que é uma presença constante na Mulheres que Escrevem, achamos importante falar sobre isso. Começamos a prestar atenção nessa constância de várias escritoras que se suicidaram, então queríamos trazer essa dificuldade do corpo, da casa, e de como isso virava de fato um tormento. Para tentar trazer uma visão mais positiva, pensamos em como estamos transformando isso através das poetas com quem dialogamos hoje em dia, que seguem vivas e esperamos que continue assim, que elas morram bem velhinhas (risos). Enfim, queríamos expor essa dificuldade e mostrar que escrever é um ato de sobrevivência e de resistência. E, acima de tudo, trazer à tona essas mulheres e problematizar o lugar de escrita das mulheres.

Além de publicar mulheres, vocês se preocupam em driblar outras lógicas do mercado editorial? Como, por exemplo, dar mais independência financeira ao autor, etc.

Gostamos muito de trabalhar com zine. A Taís fazia toda quinta-feira uma zine no Stories do Instagram da Mulheres que Escrevem. E estamos sempre em contato com editoras independentes. Sugerimos sempre para as pessoas frequentarem feiras, para consumirem conteúdo independente, já que, se não for nós mesmas consumindo, isso vai desaparecer. Também somos super militantes da internet como meio de escrita. A internet democratizou esse espaço e permitiu que mais mulheres escrevessem por conta dessa facilidade. Claro que em um país como o nosso, muitas pessoas não têm acesso à internet, ao computador. Mas as plataformas gratuitas como o Medium, e o próprio Facebook, abrem espaço para auto publicação e para esses diálogos acontecerem sem precisarem serem intermediados por grandes editoras, que vão escolher quem vai ser lido. E normalmente quem elas escolhem para serem lidos não são as mulheres, não são os negros, não são os LGBTs. Então essa democratização (da internet) possibilita que haja mais diálogos. Pensando nesse aspecto, as zines são incríveis. É uma produção feita pelas suas próprias mãos, seus próprios textos. É preciso lançar os escritos pro mundo, ir na coragem.

Você, sendo leitora assídua de mulheres e poeta, qual foi o papel da autoria feminina em sua vida? Que diferenças isso trouxe? Qual a importância de se ler mulheres?

Diferente de muitas pessoas com quem dialogo, só fui entender que eu poderia escrever quando estava na faculdade, ou seja, quando tinha já dezoito, dezenove anos. Quando parei para pensar na literatura produzida por mulheres, entendi que, desde a minha infância, eu lia muitas mulheres. Sempre falo daquele livro Lúcia já vou indo, da Maria Heloisa Penteado. Foi um livro que me marcou muito - as mulheres ficam relegadas ao espaço infanto-juvenil, né? – e durante minha adolescência, li Clarice Lispector e Adélia Prado. Elas duas me possibilitaram acessar esse lugar. É claro que vamos nos identificar com muita coisa produzida por homens brancos. Lemos e gostamos também, mas quando lemos outras mulheres escrevendo, as referências e as experiências batem muito fundo. É quase como se alguém estivesse dando voz a algo que você sente há muito tempo e que não foi dito. Então ter contato com escritoras mulheres me abriu espaço para entender que a minha narrativa importa, que tudo bem ter um outro viés, por mais que insistam em dizer pra gente que não. Foi muito importante entrar em contato com poetas da minha geração, como a Angélica Freitas. Entender que podemos sim fazer humor, podemos sim escrever daquela maneira, que é possível sim. E ela está sempre entre nós, uma pessoa extremamente acessível. Então, a importância que há nesse diálogo fácil que acontece e de poder chegar nesse lugar que você se sente confortável quando lê uma mulher e dá um respiro. Eu sempre falo da Adélia Prado, essa mulher escrevendo de dentro de casa. Acho isso fantástico, vê-la escrevendo sobre as miudezas, sobre as menores coisas que a afetavam. Enfim, é muito importante esse diálogo. Temos que nos filiar mesmo às outras poetas.

E além de incentivo e representatividade, você acha que a leitura de mulheres interferiu na sua escrita, na sua linguagem? Se sim, como?

Sim, com certeza! Eu cito, tenho vários poemas com seus nomes, da Adélia inclusive, e versos roubados, epígrafes de livros... Tenho um projeto em que escrevo cartas para as poetas com quem me relaciono. Então pego a escrita daquela mulher e dou uma "clonada" para escrever uma carta para ela. Acho que modificou tudo. Acessei um outro registro, é como enxergo. Ter contato com a produção de outras mulheres me permitiu acessar outros registros e outras possibilidades de escrita. Tem uma teórica poeta americana, pela qual sou apaixonada, a Anne Boyer, que fala que a escrita das mulheres é anfíbia e é isso. Você entra em contato com tantas formas de escrever: cartas, diário, poesia e tudo ali entrelaçado sem saber em que gênero estamos, justamente porque transitamos entre tantas linguagens sem precisar nos opor a elas. Conseguimos passear ali. Estamos participando de uma Residência no PACC-UFRJ e falamos sobre isso, de como não é um problema citar uma outra mulher em nosso texto, como não estamos de fato concorrendo, ou quando estamos, estamos influenciadas por outro registro. Então estávamos falando da Adília Lopes citando a Esther Greenwood, da Sylvia Plath; da Angélica Freitas citando a Gertrude Stein no banheiro e um poema da Marília Garcia, cujo título é Svetlana. Acho que modifica completamente o registro e não nos incomoda dizer que mudou. Chegamos lá e apertamos o carimbo: este texto foi alterado por Angélica Freitas.

Quais são os obstáculos mais difíceis para uma mulher que escreve?

Cara, gente chata (risos). Gente chata, crítica chata, crítica com chaves de leitura boba, que fica presa em textos e teorias passadas que não dialogam tanto com o contemporâneo, até porque já não dialogavam antes. É uma pena que a crítica não vá atrás das diferenças das quais as mulheres estão indo. Mergulhamos tão fundo em tudo o que fazemos.... Na verdade, teria um lado positivo e outro negativo. Estamos sempre muito envolvidas em tudo o que fazemos. E, claro, a recepção é um ponto dificílimo porque as mulheres se cobram muito quando vão escrever resenhas. As resenhas que saem com facilidade são os homens que fazem. Na maioria das vezes, fazem resenhas sobre eles mesmos e quando fazem sobre mulheres sabemos o resultado. Polêmica, sempre (risos). Enfim, o obstáculo é galera chata, júri chato e a tentativa reducionista de que o que as mulheres fazem é panfletário; é escrever dentro de casa; de que não é universal. Não vou citar nomes, mas vemos livros inteiros, imensos, enormes, que retratam vinte e quatro horas do dia de um homem. Isso não é universal. Mas, quando você se conecta com outras mulheres, esses obstáculos vão se escondendo de alguma maneira. Você entende que não precisa prestar tantas homenagens assim aos caras que te criticam de maneira agressiva e, às vezes, nem de maneira agressiva, mas fofa: “Tadinha, vou criticar essa mulher aqui”; você entende que pode criar diálogos com outras mulheres que não vão ser condescendentes com isso. E se acharem ruim elas vão falar: “Acho que você pode melhorar isso aqui”. Isso nos tira do lugar do obstáculo. Mas é sempre ruim chegar em um lugar e ouvir um homem ler um poema misógino, racista; que você tenha que ouvir um homem falando sobre aquelas experiências e reduzindo a mulher a sua beleza. É chato demais! Hoje em dia nem consigo mais ficar com raiva, só olho e penso: “De novo, hein, lá vem vocês de novo...”. Enfim, acho que o maior obstáculo é galera chata mesmo.

Qual é a maior conquista da Mulheres que Escrevem?

Ter parado para contabilizar, quando estávamos fazendo zines, de que passaram cento e vinte e três mulheres pela Mulheres que Escrevem, e não só escritoras, mas também designers, ilustradoras, revisoras, tradutoras, pesquisadoras... Conseguimos fazer esse aglomerado. Contabilizar isso mostrou que não somos poucas, nós somos muitas. Pessoalmente falando, o mais positivo, além do afeto criado e construído, foi aprender a ouvir. Entrei em contato com pessoas muito diferentes de mim; conheci a vivência e a pluralidade de mulheres dentro de um mundo em que todas trabalhavam juntas por uma causa comum, atravessando discursos, vivências e puxando a orelha umas das outras. Tiveram os afetos, conexões, diálogos e as discussões. O tanto de vezes que ouvi pessoas dizendo o quão importante era o que estávamos fazendo... É grande o que estamos fazendo. A maior conquista é essa.

Como você vê o maior número de divulgação e publicação de mulheres escrevendo?

Batemos o pé o suficiente para terem de nos ouvir. É o que eu sempre falo: eu não vou ficar berrando no ouvido de um cara que ele tem que ler o que eu faço. Eu vou fazer, fazer, fazer tanto, que vai chegar uma hora que não vão mais poder ignorar. De alguma maneira é isso que acontece: não dá mais para ignorar. É muita mulher e estávamos bravas. Agora convivendo entre nós, conseguimos aliviar um pouco. A Angela Davis fala que quando uma mulher negra se move, ela move uma estrutura inteira. É isso. Uma se move, e a estrutura inteira se move.

E como você incentivaria as mulheres que têm dificuldade em mostrar o que escreve?

A minha dica é sempre ler. Leia. Leia antes de mostrar, leia as entrevistas das mulheres que estão escrevendo e que admiramos. Porque é muito impressionante quando você vê uma entrevista e de repente percebe que a própria Angélica Freitas tinha tensão em colocar seus escritos no mundo; a grande maioria das mulheres passa pelos mesmos dilemas e questões. A identificação nos ajuda a sair desse lugar e a entender o que é possível. E escrever muito, mostrar para pessoas próximas primeiro, entender, modificar e trabalhar no texto. Entender o texto como algo que precisa ser mexido mesmo. Tudo isso nos ajuda a ter mais coragem de colocar para fora, não só pela exibição, mas pelo trabalho conquistado. Quando você escreve uma coisa de um tiro e não pensa muito sobre aquilo, fica a sensação de “Ai, será?”. Quando você trabalha naquilo, se você acredita no que está fazendo, você exibe o que produz. E exibir o seu trabalho é poder ser reconhecida por ele.

Diante do atual cenário, quais são os próximos passos da Mulheres que Escrevem?

Resistir. Não tem outro passo não (risos). Resistir e continuar fazendo. O que eu sempre falo com as minhas amigas, escritoras e outros poetas é: vamos sair pra dançar, vamos conversar, bater papo, ser feliz. A maior ameaça que eles podem fazer é tirar nosso gosto de fazer as coisas e nos deixar com medo. Não, temos uma longa estrada construída e vamos continuar. Talvez seja mais difícil, talvez sim, mas podemos olhar para trás e ver a quantidade de mulheres que passou por momentos dificílimos antes de nós. Talvez tenhamos que enfrentar momentos de dificuldade e não estamos sozinhas. Sai pra dançar e depois vai escrever; fica de ressaca, tá tudo bem (risos) e vamos aproveitar. Não conquistamos tudo isso para ficarmos quietas. Acho que tudo isso se resume a resistir; resistir dançando, escrevendo e vivendo. Não vai dar para nos parar agora não.


*Amanda Dib é graduanda em Letras Português-Literaturas pela UFRJ.


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