V. 3, n° 3, 2016

Real, Impossivelmente Real



Editorial

Equipe Odara

A gestação de nossa terceira edição foi um pouco mais demorada do que o previsto. No reino animal, por exemplo, a salamandra alpina (“Salamandra atra”), uma espécie de anfíbio que vive no Alpes Suíços, precisa ao todo de 38 meses para que seus filhos cheguem à maturidade plena. Depois de longa espera, menos do que os três anos, podemos dizer: Nasceu! E aqui está o terceiro número da Revista Odara.

Por alguns momentos fomos vencidos pela espera, e chegamos a exaustão. E quando “o deserto da espera” cortava os fios, como nos ensina Clarice, o “telefone tocou”. A Odara se renovou, e agora conta com uma nova equipe, porém, com o mesmo sonho: ser corajosa e audaciosa, forma singular de receber autores grávidos de artigos, resenhas, contos, crônicas, poemas...

Nessa terceira edição deslocamos alguns versos de “Tabacaria”, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa:

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Do mundo da Tabacaria, ao mundo da Fantasia. Partimos de Pessoa para pensar como a literatura especulativa/ fantástica pode ter vários tratamentos e abrir diversos cortes de interpretação do mundo. Esse estilo literário tornou-se, por fim, um intrigante objeto de investigação. Como não refletir sobre obras que nos causam estranhamento, como aquela em que Gregor Samsa, em uma certa manhã, se metamorfoseou em um inseto monstruoso? Como não pensar no conto surreal Continuidade dos Parques de Julio Cortázar? Como não mergulhar nas realidades criadas por escritorescomo Isaac Asimov ou Philip K. Dick? Talvez quando o real se torna impossível somente entregar-se ao absurdo, ao exagero, ao novo seja a solução. Provavelmente é em contato com esses elementos que passamos a entender muito mais aquilo que chamamos de realidade e deixamos de ser apenas “cadáveres adiados que procriam” citando ainda Pessoa e mais especificamente Ricardo Reis.

Deslocados os versos de Fernando Pessoa, pensamos então, em um mundo como a Terra Média de J. R. R. Tolkien aqui apresentado no artigo de Davi Vasconcelos intitulado Criação, o herói e a tragédia em Tolkien. Ou que tal conhecermos um pouco mais de Persona, filme de Ingmar Bergman, e sua experimentação de alteridade em uma resenha feita por Ana Carolina Meireles. Podemos soltar as amarras e viajar com Mercosul de Rafaela Nogueira ou olhar criativamente os objetos em A morte de um chinelo, poema de Robson Deon. No conto A chave podemos encontrar um imbricado enredo à la Cortázar escrito por Paulo Torres. O trabalho de morte de Lucas Mertens nos faz refletir sobre o fim da vida, já em O Guardião temos o relato da modernização por um ângulo um tanto curioso, uma contribuição de Danilo Godinho. O conto de Erick Sierpe, Pesadelo de uma noite sem descanso, no transporta para um ambiente onírico, forte e atual. E para fechar com chave mestra o artigo de Natanael Fernandes: “O Bairro” de Gonçalo M. Tavares que parte dos mundos de Borges, uma ponte entre o escritor português e o argentino.

Nasceu! Venha conhecer a nova Odara.

Textos

Rosto fragmentado

A chave

Um intrincado jogo de chaves

Ilustração de Thiago Filgueiras

Gaivotas e pote de vidro

O guardião

Um porteiro de escola observa o avanço da modernização em uma região agrícola

Ilustração de Michel Costa