V. 4, n° 4, 2017

Desacreditado Mundo Novo



Editorial

Equipe Odara

Cento e quarenta e um mil e seiscentos carros passam em média pela Linha Amarela todos os dias. O número, registrado em veículos, não deixa saber ao certo quantas pessoas circulam por ali diariamente. Tem-se apenas uma noção, por projeção, de que são muitíssimas. Todas a organizarem seus dias para pegarem os ônibus que atravessam a Via Expressa sem fazer paradas ou para não colocarem na pista mais automóveis do que lá podem passar ao mesmo tempo. Por conta da necessidade de cruzar a via, criaram-se gestos, como consultar notícias e celulares antes de sair de casa para saber se há engarrafamentos. Antes mesmo das obras Olímpicas atropelarem os cariocas, lá estava a Linha Amarela, como trecho de estrada e etapa diária a ser atravessada.

As favelas que se espraiam nos arredores da Linha Amarela são muito mais refletidas em imagens e interpretações do que a Via Expressa. Como se os motivos que fazem com que passemos pela estrutura de concreto e asfalto não fossem irmanados aos que levam as favelas a crescerem, também diariamente, em extensão e tensão. A Linha Amarela está diante dos olhos e sob os pés dos cariocas, gravada nas íris mecânicas e memórias eletrônicas das câmeras de vigilância e marcadores de velocidade. Está registrada segundo a segundo, todos os dias, em imagens disponíveis, democratizadas. A foto que estampa a capa desta edição foi roubada do site da construtora que ergueu a via. Os números de automóveis que a percorrem foram tirados do site da empresa que administra o pedágio. A qualquer momento é possível saber, seja pela televisão ao pela internet, como está o fluxo de carros. A Linha Amarela está exposta e destrinchada diante de nós, no entanto registramos mais tédio, ansiedade e cansaço do que observações sobre como ela nos orienta.

Os termos fim da utopia  e fim da esperança  costuraram nosso convite às colaborações para a presente edição. O tom dos escritos que recebemos foram em geral menos pessimistas. Chegaram à nossa caixa textos que através da literatura colocam em perspectiva diferentes aspectos do cotidiano contemporâneo. Seja através da capacidade da poesia de não deixar fugir aos sentidos o impacto dos mecanismos da violência, como no Poema Mais-Valia, de Felippe Lima, que escolheu assinar como Kvala do Kão, ou em uma potencial aptidão da literatura para restituir valor à palavra e, por meio dela, reestabelecer a democracia, como aposta Sergio Novo. Alguns colaboradores debruçaram-se sobre instâncias aparentemente opacas da existência,  como o silêncio do conto de Marcela Menezes, ou o que estaria além da razão, como no poema de Mariana Basílio. Já Isabelle Montenegro foi mais categórica e, ao retomar o debate de Walter Benjamin sobre arte e reprodutibilidade técnica, acabou por ver no cinema hoje menos potenciais libertários do que via o crítico alemão no final dos anos 1930.

A Odara tem como proposta abrir um espaço que, a partir da literatura e da teoria, inicie reflexões e debates não só sobre o fazer literário, mas também sobre as diferentes idéias e práticas que influem na vida social. Para tanto, dividimos em seções os textos que apresentam pontos contrários ou de contato, permitindo assim, além de interpretações de cada escrito em particular, leituras mais amplas e complexas dos aspectos destacados por cada texto. Entre os integrantes da equipe da revista há diferentes visões sobre a capacidade e as formas através das quais a literatura pode colocar em causa tensões do cotidiano. Entretanto, concordamos todos em trazer na capa a imagem da Linha Amarela.

Principia

Claroescuro

Dito e não dito

Quarto

Sessão

Poema de Gabriel Bustilho

Cidade

Homem-macaco

XXII

Poema de Antônio Lasalvia

Aquarela de Bruno Lopes

Perspectiva