V. 6, n° 8, 2019

Não Corra!



Editorial

Victor Hentzy

O sucesso do filme Corra! (2016), de Jordan Peele, a produção de séries como Cara Gente Branca (2017 - ) por grandes empresas de entretenimento, a alta venda de autorxs negrxs como Achille Mbembe, Grada Kilomba, bell hooks e Angela Davis, assim como outros exemplos que poderiam ser citados, mostram um aumento da representatividade negra, além de expor como a pauta racial teve ou tomou espaço nos últimos anos, mesmo que muitas vezes isso seja usado como forma de um mercado ávido por vendas conseguir lucro.

Por trás dessa maior representatividade, no entanto, pessoas negras ainda são as que mais sofrem homicídios no Brasil. A taxa de assassinato de negros é mais que o dobro da de brancos. Em 2018, xs negrxs do Brasil inteiro se sentiram desolados com a morte de Marielle Franco, símbolo da luta dos negros e periféricos no ambiente político. No fim do mesmo ano, em meio ao caos das eleições presidenciais, o assassinato de Moa do Katendê, um dos maiores mestres de capoeira de Angola da Bahia, mostrou não apenas a intolerância política do momento, mas principalmente que negrxs são o principal alvo dos assassinos. Este ano, a menina moradora do Complexo do Alemão Ágatha Felix, como bem lembra o texto “Poema tirado de uma notícia de jornal” (presente na página 45), teve sua infância interrompida pelas armas de uma polícia que age pelo Estado, não pelo povo, e por um governo/governador que enxerga corpos negros como nada, como corpos ocos.

Em todo caso, essa edição busca, de diferentes formas, mostrar o esquecido, a cozinha, o quarto dos fundos. Não importa como ou quando receberemos o relato, o importante é que seja aberto um espaço para que o feio se mostre, para que o trabalho esteja ali, evidenciado, mesmo que não seja da vontade geral. Esse é o espaço que a Odara está abrindo esse semestre: o espaço da fala e da escuta: sejam bem-vindas e bem-vindos a mais uma edição da Odara. Mas é ainda nesse ambiente desconfortável do apartamento que você deve estar ao ler a Odara. A escuta é desconfortável.

O título desta edição,Não Corra!, foi assim criado para evocar, dentre outras coisas, típicas situações de abordagem policial aos negrxs, principalmente em ambientes periféricos. Porém, ao mesmo tempo que traz à tona a violência que xs negrxs sofrem constantemente, a referência ao filme de Jordan Peele se faz o outro lado da moeda... Não se trata apenas de uma referência a um longa-metragem feito por um diretor negro e com temática racial, mas à resistência e à força secular negra. Pois ser negrx é ter constante cautela, cuidado, muitas vezes medo e sofrimento, mas também coragem, bravura e ser tão trapaceiro contra o racismo quanto Exu.

No meio literário, diversos nomes negros, antigos ou novos, uns mais conhecidos outros nem tanto, vêm tomando espaço. Pode-se citar Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Carlos de Assumpção, Gabriel Sanpêra,Tatiana Nascimento, Sérgio Vaz, Carlos Eduardo Pereira, Edimilson de Almeida Pereira, Mel Duarte, dentre outrxs.Além desses nomes há outros que ainda não mergulharam na publicação literária e, por isso mesmo, a revista Odara os traz nesta edição para entregá-los ao mundo, principalmente a esse país, que necessita de suas palavras para enfrentar o incessante racismo dos dias. Esperamos que vocês gostem.