Aos sete anos sonhei que matava um homem

Aos sete anos sonhei que matava um homem, abria-lhe o peito rasgando a carne feito papel seco. E na mão segura entoava um coração sangrento pulsando. Batendo... Batendo...

Era uma cidade passageira, uma casa de madeira, dias - férias de verão. Era um eu que não reconheço. Eu sem irmão, sem criança, sem o infantil abrigo de uma brincadeira.

Era eu de barriga cheia. Novela das oito proibida de ver. Caminhada noturna junto da mão adulta. Amigo imaginário. A voz, o silêncio e a fala.

Aos sete anos, na cidade quase estranha, entre paredes de madeira escura, no colchão no chão, ao lado da cama de pai e mãe, havia um sonho corroído: eu, de olhos sempre perdidos, matava um homem e segurava-lhe o coração pulsando como fazendo um favor. Um homem. Do gênero e face. Um homem.

Aos sete anos, no pulo do sonho sem volta acordei aos sustos, desperta do mundo escuro que morava vivo em mim. Não sei se chorei, se chamei pela mãe. Não deu tempo de não chegar a face do sonho quando eu abria um homem e mergulhava no sangue a que me expus como ferida virulenta e cruel.

Na janela de ontem, quando contei o sonho na cozinha aos vegetais, a cena de museu da memória entrou em movimento de fala. “Que sonho esquisito criança de sete anos!”. E talvez, profundamente talvez, no antigo sonho a criança de sete anos tenha desejado um berço inconsciente de bebê, um sono que não sonha. Eu aos sete anos sonho. Sonhei. Ela sonha. A face real da fantasia infantil.

Aos sete anos sonhei que matava um homem. Passei dias sem dormir. Dias e dias até hoje, quando mato o homem que levo dentro de mim.

Eu acordo sentindo o gosto dos dentes...

Eu tinha sete anos quando sonhei que matava um homem, abria-lhe o peito e agarrava o coração em sangue quente correndo. Nas mãos infantis ainda pulsava.


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