V. 5, n° 6, 2018

A voz dela é da
força de um punho



Editorial

Equipe Odara

Dezembro de 2018. Mais de nove meses desde o assassinato de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, no bairro Estácio, região do centro do Rio de Janeiro. Nove meses desde que a vereadora mulher, negra e favelada foi calada através dos tiros de uma arma sem dono, uma arma sem atirador. G.H, ao tentar narrar o episódio da barata (ainda estamos falando da barata, ao que parece), diz que precisa segurar uma mão, uma mão sem rosto, porque não consegue imaginar um rosto para a mão. O assassino de Marielle também é uma mão sem rosto; uma mão que apertou o gatilho e hoje, nove meses mais tarde, ainda continua sem feições.

Sendo a Odara composta majoritariamente por mulheres, como, então, falar da potência da voz feminina sem falar de Marielle Franco que foi brutalmente silenciada? Sendo uma revista voltada para a literatura, temos a obrigação de falar de Clarices, de Angélicas, de Gilkas, de Cecílias, mulheres que ousaram escrever em um mundo e para um mundo que não lhes pertencem, em um primeiro momento. Não podemos, entretanto, deixar de falar das Marielles, das mulheres que tiveram suas vidas interrompidas por ousar demais, por falar demais, por colocar-se em lugar que não lhes era um direito. Se jogarmos no Google palavras-chaves como “feminicídio”, “homem mata mulher”, “marido e esposa” aparece uma quantidade imensa de matérias de jornais e revistas de crimes de homens contra as próprias parceiras (ou contra mães, filhas, netas, amigas). Ser mulher, então, por si só já é um ato de resistência “pois”, como diria G.H, “ o que é esmagado pela cintura é fêmea”.

Além disso, há cerca de um mês o país elegeu um presidente abertamente machista, homofóbico, racista. Um presidente que diz para uma mulher que ela não merecia ser estuprada porque era feia. Um presidente que diz que sua filha mulher foi “uma fraquejada”. Nosso presidente eleito é um homem que usa um discurso contra todas as minorias e, assim, nega todos os movimentos que tanto lutamos para serem reconhecidos. Nosso presidente eleito é um homem contra toda forma de pensamento crítico, contra a universidade pública, gratuita e de qualidade. Nosso presidente eleito é a personificação de tudo aquilo que lutamos contra. Essa figura nunca nos pareceu alguém possível para entrar no maior cargo executivo brasileiro, mas, graças ao ódio da população a um determinado partido e a grande quantidade do que hoje chamamos de fake news, teremos que lidar com isso pelos próximos quatro anos (e esperamos que seja um “apenas”).

Mas apesar dos infortúnios, o maior movimento contra o até então candidato foi liderado por um grupo de mulheres. Com a hashtag #elenão, a partir de uma organização virtual, as mulheres mobilizaram todo o país para manifestações contra o dito cujo. Frases como “eu não sou uma fraquejada” foram entoadas em várias cidades do país, mostrando a capacidade das mulheres de se organizarem e mostrarem a força que têm.

Por isso, A voz dela é da força de um punho é dedicado não só às escritoras que aqui publicaram, mas a todas as mulheres da nossa literatura (brasileira ou não) que ousaram escrever em um mundo que originalmente não era feito para elas. Dedicamos também, a todas as mulheres que saíram às ruas para gritar contra o retrocesso, a todas as professoras que terão que lutar contra a censura do Escola Sem Partido, às estudantes que lutam para manter-se na universidade. Dedicamos às mulheres donas de casa, mães, trabalhadoras que lutam dia a dia para manter-se no mundo patriarcal. Dedicamos, principalmente, à Marielle Franco, que veio trazer a voz da mulher negra e favelada para a política e foi brutalmente silenciada. E hoje, nove meses depois, continuamos sem resposta para a pergunta: quem matou Marielle Franco?

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